Engraçado como um assunto puxa outro. O escândalo ocorrido no Brasil recentemente envolvendo as bebidas destiladas, batizadas com metanol e que levou à morte algumas pessoas e deixou sequelas graves de saúde em tantas outras, me levou a olhar com mais afinco para as bebidas fermentadas (vinho, saquê e cerveja), inclusive na esfera do entretenimento.
A série “A Casa Guinness” veio de encontro a isso, pois acendeu os holofotes para a família irlandesa criadora da cerveja escura e de como os seus integrantes conseguiram expandir os negócios, conquistar mercados internacionais, transformando-a em uma das bebidas mais consumida de todo o mundo após o falecimento do empresário Benjamin Guinness.
A aventura é ambientada no século XIX e começa com os espectadores acompanhando as dificuldades enfrentadas pela família durante o cortejo fúnebre e para enterrar o seu patriarca, seguido pela leitura do testamento deixado por Benjamin Guinness que atava os seus quatro filhos Arthur (Anthony Boyle), Edward (Louis Partridge), Anne (Emily Fairn) e Benjamin (Fionn O´Shea) à cervejaria.
O fato é que nenhum dos herdeiros ficou contente com a partilha feita, mas o quarteto precisou aprender a trabalhar conjuntamente em prol da manutenção do legado familiar e para o desenvolvimento dos negócios. Ao longo de um período de doze meses, tempo retratado nos oito episódios da primeira temporada da série, os personagens cortam um dobrado para abafar escândalos sexuais, esconder traições, se esquivar da revolta de fenianos, além de apropriar-se de parte da dinâmica da alta sociedade para conquistar cargos políticos, visibilidade e no desenvolvimento de projetos sociais e de saneamento básico voltados à classe baixa e operária da época.
O interessante da série é acompanhar os deslocamentos das peças dentro do tabuleiro político e social, percebendo as raízes do regime capitalista, dos conflitos entre classes, da força emanada pelas instituições (família, igreja, sindicatos), além da implantação dos primeiros direitos trabalhistas como a aposentadoria remunerada após os 60 anos de idade.
Outro ponto positivo da obra é que ela não faz vista grossa para o machismo existente na época nem distribui panos quentes para os diferentes tipos de violência, tanto a física como a psicológica enfrentadas pelas mulheres, homossexuais e pobres.
É possível observar em diferentes esferas como as mulheres conseguiram ludibriar à ordem imposta e avançar com os seus objetivos e causas filantrópicas. A personagem Anne Guinness, por exemplo, é uma delas, assim como Agnes Guinness (Dervla Kirwan) e Adelaide Guinness (Ann Skelly), pois o trio precisou correr por fora e mostrar aos próprios irmãos, sobrinhos e maridos a importância de vincular o nome da família com a realização de benfeitorias sociais, como a construção de moradias populares em Londres e Dublin, a construção de pontes e outras vias de escoamento dos barris de cerveja, além da disponibilização de água potável para evitar a instalação de algumas doenças vinculadas à falta de saneamento básico.
Em contrapartida, a personagem Ellen Cochrane (Niamh McCormack) é a voz feminina dos fenianos. O papel da personagem vai além de segurar os impulsos do irmão Patrick Cochrane (Seamus O´Hara) em relação à família Guinness, pois ela também serve de elo de ligação, ou melhor, de pombo correio entre as comunidades americanas e irlandesas.
A grata surpresa da obra é a presença do ator coadjuvante Jack Gleeson que interpreta Byron Hedges, pois ele mostra as facetas dos primeiros marketeiros existentes na história com o desenvolvimento da campanha eleitoral de Arthur Guinness em prol do partido conservador, a abertura e conquista de novos mercados para a cervejaria e a fixação do nome da marca nas mentes dos consumidores.
Não posso deixar de comentar sobre a interpretação entregue pelo ator James Norton como o capanga sedutor Sean Rafferty, assim como a atuação da atriz Danielle Galligan como Olivia Hedges, esposa de Arthur Guinness, entretanto todo o elenco está coeso, especialmente o quarteto principal.
A primeira temporada de “A Casa Guinness” foi escrita por Steven Knight com a colaboração de Ivana Lowell (herdeira do sobrenome). A obra é inspirada em fatos reais e na trajetória percorrida pela família Guinness para construir um império cervejeiro, porém a novidade do momento foi descobrir que a versão sem álcool da cerveja Guinness está superando em 53% as vendas da original na plataforma do varejo britânico e a empresa tem intenção de investir 30 milhões de euros para dobrar a capacidade de produção da Guinness 0.0 na histórica fábrica de St. James Gate, em Dublin.
A produção da segunda temporada da série ainda não foi confirmada, mas para quem gosta de acompanhar narrativas contendo conspirações, intrigas, trocas de farpas, romances proibidos e ficar diante de cenas eróticas, então “A Casa Guinness” é um prato cheiro.
Beijos, Maria Oxigenada.