E lá vamos nós outra vez em busca por reconhecimento dentro da indústria do audiovisual. Depois de um ano feliz com a trajetória bem sucedida percorrida pelo filme “Ainda estou aqui”, agora é o momento de olharmos para outros produtos feitos no último ano e para as possibilidades reais de emplacarmos outras películas em festivais e premiações.
A película “O Agente Secreto” acaba de estrear nos cinemas brasileiros e é o representante do país na corrida por novas estatuetas em 2026. A receptividade do filme no exterior está sendo boa, tanto que na última edição do Festival de Cinema de Cannes ele abocanhou dois prêmios, sendo um de melhor ator para Wagner Moura e outro de melhor diretor para Kleber Mendonça Filho.
“O Agente Secreto” é ambientado no ano de 1977, durante o regime militar e acompanha o deslocamento feito pelo professor universitário e especialista em tecnologia Armando/Marcelo (Wagner Moura) de São Paulo para Recife durante o feriado de carnaval e após ser acusado de práticas subversivas.
Na capital pernambucana, o protagonista é acolhido por dona Sebastiana (Tânia Maria), proprietária de um edifício que esconde fugitivos, militantes políticos e pessoas que estão esperando pela oportunidade de fugir do país. Dentre eles estão: Cláudia (Hermila Guedes) e sua filha Beatriz, o casal de angolanos formado por Thereza Vitória (Isabel Zuaa) e António (Licínio Januário), além do estudante Haroldo (João Vitor Silva), entre outros jovens.
O apoio financeiro para a manutenção do esconderijo acontece através das ações e articulações feitas por Elza (Maria Fernanda Cândido) e Arlindo (Thomas Aquino), entretanto Armando/Marcelo possui raízes familiares na cidade, pois o seu único filho chamado Fernando, fruto da união com a professora Fátima (Alice Carvalho), mora em Recife na companhia dos avós maternos.
O interessante do longa-metragem de 2h40 minutos de duração é que além da temática cara desenvolvida no decorrer da narrativa e que acumula momentos de tensão, reflexivos e sanguinolentos, a obra também se propõe a salpicar passagens de realismo fantástico através da inserção de personagens do folclore brasileiro, como a perna peluda, a máscara de a ursa, costurando tudo com menções de filmes de suspense feitos naquela época como “O Tubarão”, de Steven Spielberg.
Outro ponto positivo do filme é a sua cenografia que resgata objetos, veículos e figurinos usados no final da década de 70, assim como evidencia episódios de xenofobia, de coronelismo, da violência praticada por autoridades, mas também coloca sob os holofotes a cultura popular brasileira através da presença do carnaval de rua e de uma trilha sonora que privilegia a música brega, o frevo, o bumba meu boi, o piseiro, o forró, etc.
Quanto às atuações vistas, o destaque recai sobre os personagens coadjuvantes, especialmente a atriz Tânia Maria que transpira empatia e despojamento, além da forte presença de Alice Carvalho e da dupla formada pelos atores Gabriel Leone (Bobbi) e Roney Villela (Augusto) que encarnam dois matadores de aluguel.
O elenco do filme fica completo com as participações de artistas, tais como Carlos Francisco (Alexandre), Robério Diógenes (Euclídes), Kaiony Venâncio (Vilmar), Isadora Ruppert (Daniela), Laura Lufesi (Flávia), Luciano Chirolli (funcionário da Alerj), Udo Kier (Hans), Marcelo Valle, Susy Lopes, Wilson Rabelo, Rubens Santos (Natalício), Gregório Graziosi, entre outros.
Já o ator Wagner Moura faz uma boa condução da narrativa, apresentando várias nuances ao seu protagonista, mas são as interações feitas com os demais personagens, especialmente com Tânia Maria (d. Sebastiana) e Carlos Francisco (Alexandre), que catapulta a sua atuação para um lugar de humanidade.
A assinatura do diretor Kléber Mendonça Filho está lá e é de fácil reconhecimento, assim como a sua declaração de amor pela cidade de Recife. Se vocês assistiram aos filmes “Bacurau”, “Aquarius”, “O som ao redor” e “Retratos fantasmas” irão percebê-la com facilidade e isso é positivo para a construção de uma filmografia pessoal.
Não preciso nem dizer que eu estou na torcida para que “O Agente Secreto” cumpra o seu destino e desenvolva uma ótima trajetória dentro e fora do Brasil.
Até a próxima aventura.
Maria Oxigenada.