O clássico escrito por Mary Shelley ganhou outra versão cinematográfica, agora pelas mãos do diretor Guillermo del Toro. A película de 2h29 minutos de duração trata de assuntos como a vontade do homem de brincar de ser Deus, assim como a necessidade que todos nós temos de sabermos as nossas origens e de como os principais vínculos afetivos são construídos, além de ressaltar as belezas e a violência encontradas não somente na natureza, como também em núcleos familiares e dentro de relações próximas.

O médico Victor Frankenstein (Oscar Isaac) é um homem ambicioso que faz várias tentativas de trazer à vida uma criatura feita a partir de partes de corpos de soldados de guerra, entretanto a película começa acompanhando a fuga do personagem machucado durante o inverno rigoroso no ártico.

Na sequência, o espectador toma ciência a respeito dos traumas que pontuaram a vida de Victor, desde a sua infância marcada por episódios de abusos e violência doméstica praticados pelo seu próprio pai Leopoldo Frankenstein (Charles Dance), além da perda de sua mãe durante o parto de seu irmão caçula chamado William (Felix Kammerer) e os seus primeiros passos dentro da faculdade de medicina.

Victor não mensura a sua irresponsabilidade durante as tentativas feitas de ressuscitar alguém que já partiu e, muito menos, equilibra as suas ambições com os conselhos dados por outros cientistas que, aliás, o alerta sobre as consequências de seus desejos, pois a concepção de um novo ser humano envolve uma gama de outras responsabilidades que rumam no sentido de educar, de construir valores, desenvolver o conceito de ética, consciência e até sentimentos.

Outro ponto interessante desenvolvido pelo longa-metragem é que o espectador acompanha em um segundo momento da obra o ponto de vista a partir da Criatura (Jacob Elordi) no que tange a sua existência. Além disso, é possível observar todo o seu processo de aprendizado solitário, as suas primeiras descobertas íntimas, a sua inocência, os medos e a sua fixação em relação à Victor, seu criador.

O ator Jacob Elordi constrói a sua versão de monstro, ora evidenciando a raiva e força existente nele, ora mostrando toda a sua fragilidade, delicadeza e humanidade. Isso exigiu que o artista trabalhasse os gestuais, a postura, a voz, mas também concentrasse grande parte da carga dramática do protagonista no seu olhar.

A caracterização do personagem é um dos destaques da película e demandou paciência do artista, pois a sua maquiagem e transformação demorava 11 horas para ficar completa, pois contava com muitos detalhes. Durante as filmagens, o ator Jacob Elordi desfilou com 42 próteses, sendo 14 delas na cabeça e pescoço.

“Frankenstein” conta com participações especiais, como dos atores Christoph Waltz (Henrich Harlan), Mia Goth (Elizabeth Harlander), Ralph Ineson (Professor Krem), Sofia Galasso (Anna-Maria), David Bradley (homem cego), Burn Gorman (Fritz), Lauren Collins (Alma), Lars Mikkelsen (capitão Andersen), Felix Kramer, Nikolaj Lie Kaas (oficial), Lauren Collins, entre outros.

A cenografia e as locações da obra colaboram para a concepção de um filme que mescla ficção científica e suspense com pitadas de terror. A presença de neve e de um inverno rigoroso potencializa ainda mais o tom sombrio e gótico presente na película, assim como a existência de um calabouço, onde a Criatura passa parte de seus dias.

Já o figurino ganha relevância com a presença de vestidos grandiosos, coloridos, que remetem a era vitoriana e que são desfilados pela atriz Mia Goth. As peças fazem alusão ao fascínio de sua personagem pela natureza, pelos insetos e pela Criatura. Já o vestido de noiva usado pela personagem Elizabeth faz referências ao ostentado pela atriz Elsa Lanchester no filme “A noiva de Frankenstein”, de 1935, com bandagens brancas enroladas nos braços.

Quanto ao guarda-roupa masculino, este é composto por fraques, ternos, capas, sobretudos com golas peludas, uniformes militares e acessórios como chapéus, luvas de couro, bengalas, gravatas, lenços e botas. A cartela de cores é sóbria contendo pontos luminosos na intenção de criar diálogos e proximidades entre o trio protagonista (Elizabeth, Victor e a Criatura).

Eu indico “Frankenstein” às Oxigenadas que gostam de acompanhar aventuras de época e metáforas modernas, aquelas que desejam observar como o diretor redefiniu a monstruosidade e outras que querem traçar paralelos entre narrativas ficcionais e as desenvolvidas na realidade com a ajuda da IA.

A minha aposta é de que “Frankenstein” estará no páreo durante as premiações programadas para acontecer no próximo ano e o filme tem condições de abocanhar várias estatuetas, inclusive a de melhor ator para Jacob Elord, melhor fotografia e trilha sonora, pois esta última contém uma carga lírica e vibrações de insanidade.

Eu gostei.

Maria Oxigenada

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