O filme “O Agente Secreto” avançou na disputa entre as películas nacionais e será o representante brasileiro em premiações no próximo ano como é o caso do Oscar, entretanto o longa-metragem “Manas”, de Marianna Brennand Fortes, é uma obra que tentará correr por fora, disputando indicações de melhor filme estrangeiro ou ibero americano em outros eventos, como durante a entrega do prêmio Goya, que será realizado em fevereiro de 2026, na Espanha.

“Manas” toca em temáticas difíceis e evidencia parte da realidade nacional e das populações ribeirinhas, tais como episódios de abuso sexual e pedofilia, prostituição infantil, gravidez na adolescência, além de práticas de aborto ilegal através do consumo de chás e ervas, assim como a falta de perspectivas futuras.

O filme é ambientado na periferia de Belém (Amazônia) e evidencia a relação que a população ribeirinha tem com o rio e o fluxo das águas, porém a espinha dorsal de “Manas” é fazer um retrato sobre os dramas vividos por Marcielle (Jamilli Correa), garota de 13 anos, que é filha de Marcílio (Rômulo Braga) e Danielle (Fátima Macedo).

A garota é vítima de abusos sexuais praticados pelo próprio pai com a conivência de sua mãe e, como se não bastasse tamanha violência, Marcielle ainda é incentivada por sua melhor amiga a subir em barcas que circulam pela região abastecendo os ribeirinhos com alimentos, insumos e outros produtos e se prostituir em troca de alguns trocados.

O interessante do filme é que toda essa violência não é explicitada ao espectador e quem assiste à película não vê os pormenores desses abusos, mas os imagina posteriormente, pois as cenas sequenciais mostram através dos olhares trocados, dos diálogos travados entre os personagens e até das posturas corporais adotadas pela protagonista as suas consequências.

Em uma das cenas mais marcantes da narrativa, Marcielle pede para a mãe dormir na rede e não na cama na companhia do pai, entretanto a garota tem o seu pedido negado e é empurrada para mais um episódio de abuso ocorrido dentro de sua própria casa e sob os olhos dos demais integrantes da família.

A presença e atuação da delegada Aretha (Dira Paes) é peça fundamental para o desenvolvimento e desfecho da história, pois ela é a voz da consciência dessas meninas e mulheres através do desenvolvimento de um trabalho informativo, educacional e de esclarecimentos a respeito do corpo feminino. A autoridade também marca em cima de turistas, comerciantes e viajantes, evitando o crescimento da prostituição infantil à beira dos rios e dentro de embarcações.

Os desafios nesse sentido são muitos, Oxigenadas. Episódios de agressão física, psicológica, sexual e negligência contra menores e jovens de até 19 anos cresceram 36% no ano de 2023 em relação ao ano anterior, segundo dados do Atlas da Violência de 2025 e divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Ao todo, naquele ano foram 115.384 vítimas registradas no país. Isso sem dizer em milhares de outras que não tiveram a coragem para denunciar os seus agressores.

E apesar da pouca idade, a atriz Jamilli Correa consegue segurar o papel e aprofundar as camadas psíquicas de sua personagem. A jornada construída pela sua heroína é completa e culmina em sua redenção. Antes disso, a protagonista passa por perrengue atrás de perrengue até munir-se de coragem para mudar o seu próprio destino.

“Manas” não é um filme de fácil digestão e nem é uma obra alegre, mas é um produto do audiovisual que propicia reflexões profundas no espectador ao seu término e, talvez, gere impulsos proativos no sentido de ajudar na modificação deste cenário e realidade amazonense.

A fotografia da obra é um deleite, pois além de contar com cenas panorâmicas da grandiosidade dos rios, da floresta e do verde, bem como cenas aproximadas dos filetes de água doce, de raízes emergentes e dos manguezais, ela também destaca as palafitas e as habitações construídas sobre corpos d´água.

Eu indico “Manas” por todos os motivos citados acima e estou de dedos cruzados para que o longa-metragem abocanhe algumas estatuetas, siga o seu curso natural rumo ao sucesso e que a aventura toque o maior número de pessoas.

Beijos,

Maria Oxigenada.

 

 

 

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