Oxigenadas, o que é esta onda de produções nacionais recentes? O Brasil está mandando muito bem neste quesito. Só filmaços! Recapitulem comigo os últimos lançamentos. São eles: “O último azul”, “Manas”, “O agente secreto” e “O filho de mil homens”. Tá bom para vocês?
Eu tô amando essa efervescência, especialmente porque cinéfilos de outros países estão descobrindo e aplaudindo as nossas produções e tomando ciência de que o Brasil é celeiro de ótimos profissionais, boas ideias e histórias com potencial para impactar, comover e sensibilizar quem está diante da telona.
“O filho de mil homens” é um filme baseado no romance escrito por Valter Hugo Mãe e dirigido por Daniel Rezende. Ele acompanha o cotidiano do pescador Crisóstomo (Rodrigo Santoro). Homem solitário, humilde que costura um boneco de pano para lhe fazer companhia e aplacar a solidão sentida.
Em um determinado dia e quando estava totalmente entregue à tristeza e conectado com a natureza, Crisóstomo pede aos mares a chegada de um filho para lhe acompanhar na velhice. A mudança das marés e dos ventos traz ao seu encontro Camilo (Miguel Martines), menino órfão que pouco sabe a respeito de suas origens, sua história.
A partir daí, outros personagens surgem na narrativa para modificar o destino de Crisóstomo e preencher o vazio anteriormente sentido. “O filho de mil homens” ainda toca em outras temáticas, tais como: homofobia, fanatismo religioso, iniciação sexual, invisibilidade social, rearranjos familiares, o valor das amizades, além de vários tipos de violência.
Passados os primeiros dias de convívio conjunto, Camilo pede à Crisóstomo uma mãe, pois não tem nenhuma lembrança da sua e gostaria de sentir o calor materno. Aos poucos, o espaço feminino vago na nova família recém constituída é preenchido por Isaura (Rebeca Jamir), jovem que vive um casamento de fachadas com Antonino (Johnny Massaro).
A personagem sai em busca de mudanças concretas de sua realidade atual e a fim de desenhar para si um novo destino, bem longe da manipulação e da influência negativa de sua mãe, interpretada na obra pela atriz Grace Passô. Em suas andanças pelas praias da região, Isaura depara-se com a casa de Crisóstomo e com a doçura emanada pelo pescador.
Aos poucos, os vínculos entre os personagens vão se estreitando e o protagonista consegue por fim construir o que sempre sonhou, ou seja, um núcleo de afetos, onde o que importa são os laços de amizade, os sentimentos nutridos e compartilhados e a união de corações solitários.
“O filho de mil homens” não é um longa-metragem de fácil digestão, pois conta com um ritmo moroso, com poucas falas e que abre espaços para o silencio atuar e influenciar os personagens. Além disso, a força da natureza tem papel relevante na condução da narrativa, na passagem do tempo, porém a película é tocante e merece ser apreciada.
O ator Rodrigo Santoro consegue desenvolver bem o seu papel, imprimindo a sensibilidade necessária ao personagem e adotando posturas corporais coerentes com a carga de sofrimentos carregada pelo seu protagonista, assim como olhos lacrimejantes. A sua atuação está concentrada em pequenas atitudes, nas trocas de olhares, nas sutilezas e na agudeza interpretativa alcançada ao longo de anos de atuação no mercado audiovisual.
Outro ponto positivo da obra é que há afinidades cênicas e a química sentida entre o artista, o ator mirim Miguel Martines e a atriz Rebeca Jamir é algo relevante para que os espectadores embarquem na aventura não linear e acreditem na história desenvolvida ao longo de 2h07 minutos de duração.
Filmado nas praias de Búzios e na Chapada Diamantina, a película ainda conta com participações especiais dos atores: Antonio Haddad Aguerre (Antonino jovem), Lívia Silva (Isaura jovem), Inez Viana (Matilde), Marcelo Escorel (Alfredo), Tuna Dwek (Dra Carminda), Carlos Francisco (pai de Isaura), Juliana Caldas (Francisca), entre outros artistas. Já a narração da obra ficou a cargo da atriz Zezé Motta.
Quanto a sua fotografia, ela potencializa os aspectos de solitude, introspecção, bem como os preconceitos retratados através da exploração de uma cartela de cores acinzentadas e terrosas no intuito de potencializar a aridez relacional vivida não só pelo protagonista, como também pelos demais personagens, além das dores de que essas almas são feitas.
“O filho de mil homens” é um filme tocante e que comove quem está com o coração aberto para receber a história. Agora, se vocês estão interessadas em acompanhar os trabalhos feitos pelo ator Rodrigo Santoro, então a minha sugestão é para vocês ficarem atentas aos próximos lançamentos nacionais, pois o artista integrou o elenco do curta-metragem “Corrida dos bichos”, de Fernando Meirelles, que aborda o universo do jogo do bicho em um Rio de Janeiro distópico.
Beijos,
Maria Oxigenada.