Acredito que todas vocês já tenham passado pela experiência de entrar em um mar calmo e, de repente, levar um caldo do nada. Pois é! Essa é a sensação deixada pelo filme “Valor sentimental”, pois à primeira vista a aventura parece ser um drama familiar com visitas feitas ao passado, entretanto com o passar dos minutos ela aprofunda as suas camadas e vai adentrando territórios traumáticos de gerações da família Borg.

A película começa apresentando os personagens, inclusive a casa que abriga memórias familiares e que, posteriormente, será usada como locação de filme. Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) cresceram na casa, onde as paredes têm ouvidos e se pudessem falar contariam histórias sobre torturas, a respeito de suicídio, dores da alma e confissões íntimas, entretanto a residência também foi palco de festas juvenis e confraternizações familiares.

As irmãs citadas acima estão reunidas na casa que era o lar e o consultório terapêutico de sua mãe para dar o último adeus a progenitora. O que elas não esperavam era rever o pai Gustav Borg (Stellan Skarsgard) na ocasião, pois fazia anos que o trio não ficava frente a frente.

Gustav Borg é um diretor de cinema renomado, egocêntrico, narcisista e um pai ausente e fonte geradora de vários traumas e frustrações nas filhas. O encontro acontece quando ele está às vésperas de iniciar as filmagens de um longa-metragem baseado em passagens pessoais e familiares. A ideia do bonito é que Nora protagonize a obra.

Ela é atriz de teatro e está em cartaz com a peça “A Gaivota”, de Anton P. Tchekhov, onde interpreta a personagem Nina. A produção da peça mescla texto clássico com uma montagem atual, onde ferramentas tecnológicas são usadas na construção da cenografia e costura da obra. Devido a tal fato, a personagem rejeita o projeto.

Paralelamente, os caminhos de Gustav com o da atriz Rachel Kemp (Elle Fanning) se cruzam durante a realização de um festival de cinema e ele resolve convidá-la para participar de seu futuro filme no lugar de Nora. A escolha não foi aleatória, mas sim baseada na popularidade de Rachel e na possibilidade de aumentar o número de patrocinadores/investidores do filme.

O interessante do longa-metragem é constatar que os seres humanos são passíveis de muitos defeitos e até crueldades psíquicas. Neste caso, as relações familiares são difíceis, embricadas, porém também são fontes de irmandade, alegrias genuínas, feridas complexas e até reconciliações e curas ocorridas através das artes.

Dirigido por Joachim Trier, o filme tem duração de 2h13 minutos e conta com uma iluminação fria, cortes secos, ritmo lento e interpretações que dão espaço para que o espectador adentre a história, se emocione conjuntamente com as personagens e caminhe no sentido restaurador das trocas relacionais.

O fato é que “Valor sentimental” não é uma película de fácil acompanhamento, nem de fácil digestão, mas é uma obra que nos faz refletir sobre a importância de figuras paternas na constituição da personalidade, da sanidade mental, dos valores individuais e no impacto de dores da infância na vida adulta, inclusive no desenvolvimento de doenças psíquicas e comportamentais.

Conforme eu assistia ao filme, eu me recordava de um trecho do livro “Eu me lembro”, de Selton Mello, onde o artista diz que a infância é tudo. É a base. “Tudo o que você vive hoje, seus medos, suas forças, seus desejos, o que você sabe, o que aprendeu, basicamente é tudo o que você viveu, ouviu e sentiu na infância”, palavras do próprio ator e diretor.

Eu indico “Valor sentimental” às Oxigenadas que curtem aventuras melancólicas, criadas em cima de diálogos e que são respaldados por momentos reveladores que transmutam histórias pessoais e vínculos familiares.

No próximo dia 15 de março, o filme estará concorrendo em nove categorias distintas durante o Oscar 2026. São elas: melhor filme, melhor filme internacional, melhor atriz (Renate Reinsve), melhor direção (Joachim Trier), melhor ator coadjuvante (Stellan Skarsgard), melhor atriz coadjuvante (Elle Fanning e Inga Lilleaas), melhor roteiro original e melhor montagem.

Será que a obra levará para casa alguma estatueta dourada? Veremos.

Maria Oxigenada.

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