Título bom, né!? Vocês não acharam? Eu gostei logo que o li pela primeira vez e depois de tomar ciência a respeito do conteúdo do filme. “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria” acompanha a rotina de Linda (Rose Byrne), terapeuta que está sobrecarregada diante da doença da filha, dos compromissos profissionais e da omissão do marido perante as responsabilidades domésticas e familiares.
A personagem feminina vê o seu mundo, literalmente, desabar e ser obrigada a sair de casa depois que o teto de um dos cômodos da residência cede, abrindo um buraco e uma passagem indesejada com o apartamento localizado acima do seu. Junto com a sua filha em tratamento médico, ela é obrigada a morar em um hotel de quinta categoria no período em que o serviço de restauro é feito e este demora mais do que o planejado.
Os problemas parecem brotar na vida de Linda, assim como o vazamento na sua residência, pois além dela estar esgotada emocionalmente, a personagem ainda precisa atender pacientes com problemas psíquicos que estão em pior estado emocional que ela própria, assim como gerir todas as demandas surgidas.
A agrura é que a protagonista não tem uma rede de apoio onde se escorar e contar, pois o seu próprio terapeuta a despreza, bem como as mães de outras crianças em tratamento, isso sem dizer no seu marido que é o típico narcisista, egocêntrico e que a pressiona o tempo inteiro através de ligações telefônicas, pois passa a maior parte do ano trabalhando em outras localidades.
O interessante é que o filme “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria” é inspirado na história real da roteirista e diretora Mary Bronstein, pois ela também precisou deixar Nova Iorque rumo ao interior americano para acompanhar o tratamento médico da filha e morar por meses longe do seu marido e em um hotel. A artista faz uma participação especial na película no papel de uma médica.
Outro ponto curioso da obra é a sua fotografia, pois a câmera não se distancia do rosto da atriz Rose Byrne, evidenciando as suas expressões faciais e os olhares aflitos de sua personagem. Em contrapartida, o rosto da filha da protagonista não é visto durante o desenvolvimento da narrativa e o espectador somente ouve a sua voz, imaginando como seria a sua fisionomia.
A atriz Rose Byrne consegue personificar bem o caos mental em que a protagonista está mergulhada e o figurino usado por ela ajuda na construção do desmonte psíquico de Linda, assim como as atitudes tomadas pela protagonista como fórmula de apaziguar o seu sofrimento. No próximo mês, a artista estará disputando a estatueta dourada com as atrizes Emma Stone (Bugonia), Jessie Buckley (Hamnet), Kate Hudson (Song Song Blue) e Renate Reinsve (Valor Sentimental). A briga promete ser das boas e a categoria será uma das mais concorridas da noite de gala.
“Se eu tivesse pernas, eu te chutaria” é um longa-metragem indicado às Oxigenadas que curtem refletir sobre a maternidade real e o que normalmente acontece longe de idealizações e discursos românticos compartilhados conosco desde a infância.
Eu também sugiro a película para aquelas que gostam de acompanhar histórias que retratam o desmonte pessoal de uma mulher solitária, estressada e pressionada de todos os lados e que não encontra as soluções para os seus problemas e nem para as suas insatisfações.
“Se eu tivesse pernas, eu te chutaria” é mais uma aventura difícil de encarar desta leva atual de filmes, porém é o passaporte para abrirmos algumas discussões sobre a saúde mental, o surgimento de vícios, a depressão pós-parto, a respeito do papel feminino na sociedade atual e, principalmente, sobre a importância das divisões de tarefas e responsabilidades com os pares.
Eu gostei.
Maria Oxigenada.