Direto do túnel do tempo. Histórias envolvendo vampiros, seres extraterrestres, bruxas e personagens folclóricos já tiveram os seus momentos no passado, transformando-se em ícones da cultura pop. Alguns produtos do audiovisual, como “A Saga Crepúsculo”, as séries “Diário dos Vampiros”, “The Witcher”, “Cidade Invisível”, “Arquivo X”, “Twin Peaks” são alguns exemplos disso.

Cientes do interesse do público, alguns roteiristas e diretores resolveram ressuscitar personagens e temáticas já trabalhadas com a intenção clara de conquistar a geração Z e Alpha, além de fazer a alegria de nostálgicos. Na esteira dessa onda foram lançados recentemente “Bugonia”, “O Agente Secreto”, “Avatar: Fogo e Cinzas”, “Frankenstein” e “Pecadores”. Este último coloca sob os holofotes novamente os vampiros.

A narrativa é construída com foco no retorno dos irmãos gêmeos Smoke e Stack (Michael B. Jordan) ao sul do Mississipi depois de dez anos longe de sua cidade natal e prestando serviços para o mafioso Al Capone, em Chicago (USA). A volta da dupla é motivada por abrir um bar local, onde os negros da região pudessem ouvir blues, dançar, degustar boa comida e ainda gozar da liberdade tolhida pela comunidade branca.

Os problemas começam depois que eles compram um antigo galpão de um ex-integrante da ku klux klan (grupo extremista cristão, de direita e que defende correntes reacionárias de nacionalismo branco, além de adotar discursos xenofóbicos e racistas) para ser o bar da galera.

A compra feita por dois negros desperta não só desconfortos na comunidade, como também a ira de fazendeiros, agricultores e autoridades locais que planejam realizar um ataque conjunto ao estabelecimento comercial. A película é ambientada em 1932 e naquela época ainda havia respingos de episódios de segregação racial, de falta de direitos humanos e democráticos, bem como de pouca ou nenhuma participação política e visibilidade por parte dos negros e imigrantes.

O blues, ritmo musical que conta com a presença de gaitas, pianos, saxofones, trompetes e que é a base do jazz, do rock e do hip hop, também era considerado música do diabo e na obra ele é tocado com maestria pelo jovem pastor Samuel, primo de Smoke e Stack, que sem uma intenção consciente acaba evocando os seus ancestrais.

Outras criaturas que estavam adormecidas também ressuscitam através dos acordes ouvidos e das vibrações emanadas pelo requebrar dos corpos no dia da inauguração do bar. Remmick (Jack O´Connell), líder irlandês das criaturas sanguinárias, acredita que ele também possa rever os seus familiares e voltar para as suas origens, por isso força a sua entrada no bar na companhia de outros vampiros.

Um dos papéis de “Pecadores” é lembrar aos espectadores a história de formação dos Estados Unidos que contou com os braços e esforços de negros, irlandeses, latinos e indígenas. Em 1845, quase meio milhão de irlandeses imigraram para a América fugindo da fome e da recessão econômica.

As bases da cultura afro também são revisitadas através da presença da mística Annie (Wunmi Mosaku), mulher adepta do uso de plantas e cascas de árvores para o feitio de medicamentos naturais, além de ser detentora de sabedoria milenar, passada oralmente de geração para geração e pessoa que segue os rituais desenvolvidos pelo seu povo ao longo do tempo.

Então, para vocês compreenderem o filme “Pecadores” é preciso mergulhar através das camadas desenvolvidas pelo diretor Ryan Coogler, percebendo as referências espalhadas pelo artista nas cenas vistas. A presença dos vampiros é uma metáfora sobre o comportamento adotado por colonizadores em relação aos colonizados.

O interessante da atuação do ator Michael B. Jordan é que ele consegue criar personalidades distintas para os gêmeos, diferenciando-os através de atitudes, posturas e pensamentos. O artista estará disputando a estatueta dourada no próximo dia 15 de março com o ator Wagner Moura, Leonardo DiCaprio, Timothée Chalamet e Ethan Hawke. Na ocasião, “Pecadores” concorrerá em 16 categorias, superando “Titanic”, de 1997, e “La La Land: Cantando Estações”, de 2016; ambas com 14 indicações na época.

Eu indico a aventura às Oxigenadas que curtem assistir películas que mesclam terror, suspense e drama e aquelas que ficaram estarrecidas com o episódio de racismo ocorrido antes do feriado do Carnaval envolvendo o casal Obama e que evidenciou as reverberações de atrocidades de outrora.

Beijos,

Maria Oxigenada.

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