No final de semana em que foi celebrado o Dia Internacional das Mulheres aconteceu a estreia de “Gal, o Musical”. A sincronicidade não poderia ser mais do que benvinda, pois a artista foi considerada musa do movimento Tropicália, além de ser uma mulher oxigenada e integrar o quarteto fantástico oriundo da Bahia e que era formado por Gilberto Gil, Caetano Veloso e Maria Bethânia.
O espetáculo começa com a intervenção dos Orixás no destino do bebê que Mariah (Dani Cury), mãe de Gal, esperava. Maria das Graças/Gal Costa (Walerie Gondim) foi predestinada a ser artista, mas antes de alcançar o sucesso ela precisou ralar muito e trabalhar como vendedora de loja de discos, além de cantar pelas ruas de Salvador em busca de alguns trocados e ajudar na produção de shows de outros artistas.
A roda do destino de Gal começou a girar após a sua mudança para o Rio de Janeiro com intuito de lançar um compacto de músicas com a ajuda e a benção de Maria Bethânia. Paulatinamente, ela foi conquistando o seu espaço no meio artístico, mas precisou lidar com o sexismo do meio musical e no mercado fonográfico, assim como com as diferenças salariais de gêneros existentes na época e a dualidade do masculino x feminino presente dentro de si.
Durante o espetáculo, fica claro de que a ausência do pai que a abandonou ainda bebê interferiu no desenvolvimento da sua psiquê e do seu emocional, assim como a mediação de uma mãe “castradora”. Tímida e discreta com a sua vida pessoal, a artista não era de expor os seus relacionamentos pessoais, tanto que durante a peça teatral é possível tomar ciência a respeito de poucos, tais como: com Vera e a atriz e cantora Lúcia Veríssimo.
O interessante do musical é que ele também aborda as consequências e os respingos sofridos pelos artistas brasileiros durante o período de ditadura militar e de como Gal Costa reagiu artisticamente contra a opressão, episódios de violência e a censura da época. “Vaca Profana”, canção censurada no início dos anos 80, é quem abre o show teatral, mas no decorrer deste outras músicas também são entoadas como hinos de resistência e rebeldia.
Agora, o auge da peça acontece no segundo ato desta e quando a música “Brasil”, de Cazuza, é cantada. A canção integrou o espetáculo “O sorriso do gato de Alice”, de 1993, e foi dirigido por Gerald Thomás. Ao público na ocasião, foi revelada uma faceta mais desinibida, solta e à vontade de Gal nos palcos.
Outro ponto de destaque na obra e de virada na vida da artista é a sua iniciação no Candomblé, religião de matriz afro. Gal Costa foi levada ao terreiro de Mãe Menininha (Denise Fersan) por Maria Bethânia (Calu Manhães) e por lá descobriu quem eram as divindades que a protegiam e as quais tinha forte conexão. A música “Oração de Mãe Menininha” é exemplo de reverência feita pela artista diante da novidade.
“Gal, o Musical” conta com 2h30 minutos de duração com intervalo de 15 minutos entre os atos, além da participação de outros atores, tais como: Barbara Ferr (Dede/Vera), Badu Morais (Ereskigae), Bruna Pazenato (Lúcia Veríssimo), Dudu Galvão (Ronny/Gerald Thomas), Edu Coutinho (Caetano), Fernanda Ventura (Inanã), Larissa Carneiro (Leonor), Leilane Teles (esemble), Lucas Oliveira (Jair Rodrigues), Marco França (Gilgamesh), Nestor Fonseca (esemble), Roma Oliveira (Wally Salomão), Théo Charles (Gilberto Gil) e Vinicius Loyola (Tom Zé).
O destaque da obra recai sobre a interpretação de Walerie Gondim. É perceptível a adoção de posturas e trejeitos da artista retratada, assim como é visível aos espectadores a crescente desenvolvida na atuação da artista. No segundo ato da peça, parece que a atriz/cantora encontra o tom esperado para a sua Gal, fechando o espetáculo em alto astral e com uma sequência de marchinhas de carnavais de outrora, como “Balancê”, “Bloco do Prazer” e “Festa do interior”.
O bacana dos espetáculos encenados no 033 Rooftop é que eles adotam uma formatação diferente de palcos. Neste, a caixa cênica é posicionada centralizada, obrigando os atores a atuarem como se estivesse em um teatro de arena. Luzes coloridas, lamparinas, andaimes, trilhos de trem e poucos objetos cênicos completam a cenografia da obra, além de uma pequena banda posicionada na lateral do espaço e que acompanha os atores/cantores em cena.
Para quem deseja conhecer um pouco mais a respeito de Gal Costa, eu sugiro a visualização do filme “Meu nome é Gal!”, de 2023, onde a atriz Sophie Charlotte veste a pele da artista diante das câmeras, além de ouvir toda a sua discografia. Há também uma biografia de Gal Costa ainda no forno da editora Zahar e sendo escrita por Guilherme Amado. A previsão é que ela chegue às livrarias em 2027.
“Gal – o Musical” é uma belíssima homenagem à artista que nos deixou em 2022, vítima de um enfarto do miocárdio. Eu gostei e indico o espetáculo.
Maria Oxigenada.
Serviço:
Onde: 033 Rooftop, localizado na Avenida Juscelino Kubistchek, 2041 – dentro do complexo JK Iguatemi, no Itaim Bibi.
Temporada: até 10 de maio de 2026.
Quando: sexta, às 20h30; sábado, às 16h30 e 20h30; e domingo, às 15h30 e 19h30.
Preço: a partir de R$ 50,00 (inteira).