O pontapé da nossa conversa será feito a partir de um desabafo pessoal e a confissão de que eu ainda não digeri por completo a série “Adolescência”, disponível na plataforma digital Netflix. Lá se vão meses e eu continuo ruminando o conteúdo visto e o impacto do enredo desenvolvido ficcionalmente. Apesar disso, eu resolvi escrever este texto e fazer um alerta sobre o assunto.
As peças no tabuleiro foram mexidas recentemente com o lançamento do documentário “Louis Theroux: por dentro da machosfera” que ajuda a elucidar e compreender o tema que foi levantado pela série, pois alguns discursos de influenciadores digitais americanos e ingleses são colocados sob os holofotes, bem como os conteúdos ofensivos produzidos por esta galera que tem como alvos os adolescentes, especialmente os meninos entre 13 e 15 anos.
Todos os personagens presentes na película são homens ambiciosos, agressivos verbalmente, pertencentes a faixa etária de 30 e poucos anos e que “ensinam” aos demais como vencer na vida através de conselhos motivacionais, de uma cartilha que orienta na construção de condutas pessoais que reflitam a cultura, os valores pautados na velocidade e no compartilhamento em redes sociais.
No combo, há muita misoginia, racismo, sexismo, homofobia e xenofobia, episódios de humilhação, além da divulgação de teorias conspiratórias e de um estilo de vida pouco saudável, pois o conteúdo transpira toxidade e violência diversa, inclusive contra as mulheres.
É! O ódio contra as Oxigenadas é pulsante entre os integrantes da machosfera, além da ressalva à superioridade física e intelectual masculina e a irrelevância da independência feminina e do seu bem-estar. Paralelamente, surgiram algumas tendências que ajudaram a endossar tamanha loucura, tais como a das esposas tradicionais, ou seja, a valorização de mulheres que abandonam o mercado de trabalho e os estudos em prol da dedicação integral aos filhos, aos maridos e as tarefas domésticas, assim como faziam as nossas avós e bisavós.
Na esteira do modismo há ainda as esposas troféus, ou seja, mulheres bonitas, sexies que ostentam artigos de luxo e estilos de vida inacessíveis aos mortais, mas que na verdade são dependentes emocional e financeiramente de seus parceiros. Não preciso nem dizer que ambas são convenientes à manutenção do sistema capitalista vigente há décadas e vão de encontro a ampliação de ambientes povoados por homens radicais, reacionários.
Outro ponto levantado no documentário e que já é perceptível dentro de universidades e empresas é uma imersão total em esferas virtuais e no uso de inteligência artificial pelas gerações Z e Alpha, além da adoção de posturas de insubordinação e a volatilidade na atuação dentro do mercado de trabalho. A escala 6X1 é piada para a galera retratada no documentário, bem como acordar cedo para registrar o ponto ou acumular anos de exercício profissional em um mesmo local de trabalho.
O problema é que os discursos adotados pela machosfera também contribuem não só ao esfacelamento das instituições, assim como estimula práticas e ataques contra a democracia, aos direitos humanos e às mulheres. Os respingos deste show de horrores já podem ser sentidos através do aumento de episódios de feminicídio, de casos de estupro contra adolescentes e integrantes da comunidade LGBTQI+, além do acréscimo na quantidade de homicídios e outros crimes praticados contra o feminino.
A boa notícia é que no Brasil há um projeto de lei esperando para ser votado pelos senadores e este pretende criminalizar a misoginia da mesma forma como acontece com o racismo. Caso ele seja aprovado e a proposta saia do papel, qualquer pessoa poderá fazer denúncias formais, inclusive de episódios ocorridos dentro do universo virtual e, com isso, os agressores poderão ser investigados, processados e condenados pelos seus discursos de ódio e por atitudes adotadas. A pressão sobre as plataformas digitais também irá aumentar e, provavelmente, elas serão obrigadas a remover conteúdos red pill.
Por hora, eu sugiro que vocês aprofundem as suas reflexões sobre o assunto através da leitura da reportagem de capa da revista Veja São Paulo desta semana, intitulada de A nova formação de meninos, onde psicólogos, pedagogos e especialistas apontam a educação como a chave contra a violência de gênero.
Além disso, a adaptação de currículos escolares é outra alternativa para abrir caminhos para trabalhar o panorama da masculinidade através da escuta ativa, educação emocional e acolhimento de alunos.
Outra dica é para que vocês fiquem atentas por quais caminhos os seus irmãos, sobrinhos, afilhados e familiares costumam trafegar nas redes e com quem eles estão interagindo, pois os perigos da internet são muitos e estão espalhados inclusive por detrás de mocinhos bem vestidos e portadores de milhares de seguidores nas redes. Se necessário for, alertem pais, tios e responsáveis.
Até o nosso próximo encontro,
Maria Oxigenada