O quinto golpe de enxada atingiu algo duro. Pensei ter alcançado uma pedra que estava imersa na terra, mas pedras não mergulham profundamente. Não por aquelas bandas de Conceição de Monte Alegre. Então, ajoelhei-me junto ao pé de ipê roxo, comecei a cavar com as minhas próprias mãos e senti a frieza, a umidade e a untuosidade daquele solo argiloso.

Não demorou muito para que eu avistasse um cotovelo de livro, depois outro, além de estilhaços de folhas carcomidas pelo tempo e pela terra até que eu descobri a boca entreaberta de um saco de estopa enterrado no local. Não entendi nada. Por que aqueles livros estavam sepultados justo ali? Justo no lugar onde eu tinha escolhido para plantar minhas ideias e um pé de limão rosa.

Fiz várias tentativas para puxar o saco para a superfície, mas a impressão foi de que ele estava costurado às raízes da árvore, preferindo permanecer no silêncio e na mansidão da superfície. Levantei o olhar em busca de ajuda, mas a única pessoa que avistei foi a minha avó Catarina caminhando em direção à horta, localizada próxima ao filete de rio existente atrás da sede da farinheira com a intenção de colher um pé de alface ou galhos de salsinha para o almoço de logo mais.

Recorri à lâmina da enxada para desmanchar esses pontos nós e limpar o entorno do saco de estopa. A sua exumação demorou mais de hora e quando eu finalmente terminei estava exausta, em bicas de salmoura e coberta por uma camada marrom de terra, mas muito curiosa com o recheio daquela embalagem.

As páginas dos livros estavam quase todas destruídas, porém eu consegui ler e identificar pedaços de títulos impressos nas capas duras. Alguns ostentavam o sufixo “ia” e eu concluí que eram livros de sociologia, filosofia e economia. A confirmação das minhas suspeitas veio quando retirei o último livro do saco e o único com seu título praticamente intacto. Tratava-se de um exemplar de “O Capital”, de Karl Marx.

Naquele instante, minha alma foi atingida por lufadas de pensamentos desconexos. Não sabia o que fazer com a minha descoberta e não tinha certeza de que puxar o saco até a sede da farinheira seria uma boa ideia, então tomei um novo gole de ar fresco, amarrei a minha camiseta no nariz para me proteger de assombrações e permaneci sentada no chão batido vasculhando o passado.

– Tereza! Tereza!

Saí daquele estado de torpor somente com o grito dado pela minha mãe me chamando para almoçar. Quando me levantei do chão, senti o peso da descoberta, não reconheci o cenário e vi tudo cirandar a minha frente.

Durante o almoço, levei apenas algumas garfadas à boca que estacionaram logo na entrada da garganta. Na ocasião, a minha avó ocupava a cabeceira da mesa, como de costume. Ao seu lado, duas de suas três cunhadas, Ana e Anunciata, e do lado esquerdo da mesa estávamos sentadas eu e a minha mãe Marina.

A reunião feminina tinha sido organizada para que o trio ensinasse a minha mãe algumas receitas de família, pois há anos ela deseja aprender os segredos do feitio do pão “cheiroso” servido nos domingos de Páscoa na mesa da família Valente.

Criação da bisa Emília, a receita conta com um recheio feito com pão caseiro ralado e frito na banha de porco, além de uvas passas, cravo em pó e açúcar cristal polvilhado por cima de tudo para acrescentar doçura ao prato. Quanto à massa, ela é enrolada no formato de um rocambole e acomodada dentro de uma panela de ferro antes de ir para o forno à lenha para assar.

Enquanto a minha avó passava um café fresco pelo coador de pano, eu tomei coragem de me levantar da cadeira e ir ao seu encontro. Depositei minhas mãos em seus ombros e perguntei sobre o saco de livros enterrado na propriedade. Observei imediatamente o seu semblante fechar, os seus olhos inundarem em lágrimas e ela sair em disparada na direção do pé de ipê roxo. Corri atrás dela e a encontrei chorando diante das ossadas de livros.

Ela me confessou que todo aquele material pertencia ao meu avô Ari na sua juventude e que ele próprio o tinha enterrado com a intenção de destruir provas que pudessem incriminá-lo, pois durante a ditadura militar, ler, discutir e pensar sobre política, democracia, distribuição de rendas, terras improdutivas, devolutas e carências populacionais era algo inimaginável, especialmente para um estudante de curso técnico de contabilidade e filho de agricultores.

Depois da confissão, a minha avó simplesmente desapareceu da minha vista e foi abraçar suas lembranças. Recolhi-me na ignorância dos acontecimentos e até agora estou na dúvida se enterro novamente o saco de livros ou não. Talvez seja melhor esperar a poeira abaixar ou talvez seja interessante eu ouvir os ecos dessa história por outras bocas.

As das tias Ana e Anunciata costumam ser nervosas. As duas não param de soprar aos quatro ventos os dramas e as novidades dos Valente, como se tivessem cada uma com um punhado de canela em pó nas mãos e cumprissem à risca o ritual para atrair prosperidade, fartura, sucesso e que diz:

“Quando essa canela eu soprar, a prosperidade aqui entrará. Quando essa canela eu soprar, a fartura virá para ficar. Quando essa canela eu soprar, a abundância aqui vai morar”.

Já a minha avó Catarina é uma mulher de poucas palavras, poucos sopros e que raramente se abre aos conhecidos. Digo sempre que ela cozinha suas alegrias e seus problemas em fogo-maria e na mansidão da solidão com que aduba a horta, afofa a terra e caminha entre os pés de frutíferas, reafirmando sua essência de mulher do campo que encontra sabor na simplicidade da vida e na abundância do essencial.

Não posso nem imaginar magoá-la. Ela não merece tamanha agressão, entretanto estou me corroendo por inteira para saber o que realmente aconteceu com o meu avô depois que ele enterrou seus livros, seus sonhos. O assunto pode até ser tabu na família, mas eu vou descobrir. Prometo que vou!

FIM

*Este é um texto ficcional, de autoria de Luciana Maróstica e que terá continuação em breve.

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