A peça “Fim de Partida”, junto com “Esperando Godot” e “Dias Felizes” formam a trinca de obras desenvolvidas pelo escritor, dramaturgo e poeta Samuel Beckett e que até hoje são montadas. Os temas tratados nelas consistem no vazio existencial, na passagem do tempo, na falência da linguagem, bem como no nascimento da violência, nas carências e dependências emocionais, na decadência humana e a solidão.
Todos os assuntos citados acima são caros e difíceis de serem digeridos pelo público, porém a montagem dirigida por Rodrigo Portella e produzida por Fernando Libonati se vale da metalinguagem para facilitar a sua compreensão, além da colaboração de quatro atores experientes e que estão azeitados em cena.
O quarteto visto dentro da caixa cênica é composto por Marco Nanini (Hamm), Guilherme Weber (Clov), Helena Ignez (Nag) e Ary França (Nell). Hamm é um homem cego, que está preso em uma cadeira de rodas, filho de Nag e Nell e dependente dos cuidados e dos serviços prestados por Clov. Já o segundo personagem também apresenta dificuldades de mobilidade física e psíquica, pois não consegue se sentar e se desvencilhar do poder exercido por Hamm sobre si.
Durante os 90 minutos de duração da peça, há uma tração entre a dupla principal e a narrativa desenvolve-se com o espectador acompanhando a rotina dos quatro, além de perceber as trancas simbólicas criadas pelo protagonista para dificultar a fluidez dos acontecimentos diários, a libertação dos personagens e o término de episódios de violência.
“Fim de Partida” é ambientada após a Segunda Guerra Mundial, por isso as privações alimentares e o acesso aos medicamentos são questões trabalhadas na obra, assim como a falta de perspectivas futuras e a importância de reconstrução pessoal, coletiva.
O ator Marco Nanini é o responsável por imprimir o ritmo do espetáculo, além de construir os jogos de poder vistos sob os holofotes através da criação de uma dinâmica persuasiva com os demais personagens, enquanto que o ator Guilherme Weber acumula os respiros cômicos da obra, servindo de escada para Nanini brilhar e tendo o papel de costurar junto com Helena Ignez e Ary França o enredo da peça. Aliás, os personagens desenvolvidos pelos dois últimos artistas concentram para si os fracassos das relações familiares, sociais, além das tristezas sentidas na velhice.
“Fim de Partida” ainda conta com uma cenografia desenvolvida por Daniela Thomas que cria uma caixa dentro da caixa cênica com a presença de poucos objetos e que em parceria com a iluminação feita por Beto Bruel com tonalidades quentes intensificam a sensação de clausura e opressão vivida pelos personagens.
Quanto ao figurino, este é formado pela sobreposição de peças puídas de algodão e de veludo, além de acessórios como meias furadas, boinas, óculos de sol com armação redonda, luvas, colares de pérolas falsas, pulseiras e braceletes metalizados, anéis, lenços e cigarrilha.
Eu indico o espetáculo “Fim de Partida” às Oxigenadas que desejam observar o desenho de cenários pessimistas, sem esperanças desenvolvidos por Samuel Beckett na época em que ele escreveu a peça (entre 1954 e 1956) ou aquelas que curtem acompanhar os respingos de embates bélicos e humanos na psiquê alheia.
Até a próxima aventura.
Beijos,
Maria Oxigenada.