A arte de tecer compreende bordados, costuras, tecidos, memórias, mitologias e vivências. A exposição “Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo”, em cartaz no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), é prova disso, pois apresenta ao público 25 trabalhos feitos por um coletivo de 100 mulheres da comunidade Wichí (povo originário da Argentina e Bolívia) que utiliza técnicas ancestrais repassadas de geração em geração.
Entre painéis, bolsas e quadros expostos no local, o visitante tem a oportunidade de tomar ciência a respeito do feitio de fios usados na confecção dessas peças e saber que a matéria prima foi extraída de uma bromélia nativa (chaguar). Além disso, o tingimento dos fios continua sendo feito de maneira artesanal e utilizando pigmentos naturais retirados da própria natureza.
O interessante é que as tramas vistas no local apresentam desenhos geométricos que remetem aos animais e plantas da região onde vivem os Wichí como a coruja e os cascos de tartaruga. As bolsas, por exemplo, contam com laçadas e pontos sem nós, enquanto que as imagens formadas através de fios desenham muitas vezes a terra e as conexões existentes entre planos distintos.
A partir disso, há uma construção de narrativas que inspiram, geram identificação, provocam diálogos, são reinterpretadas pelas gerações atuais e ganham novos sentidos, novas leituras, pois as histórias continuam circulando, estão vivas e entrelaçando pessoas e períodos históricos.
O fato é que a peça pronta não é o ponto nó da criação e nem o fim desta conversa travada entre nós, Oxigenadas. Ela abre possibilidades de desenvolvimento de espaços de aprendizagem, da reverberação de memórias coletivas, no feitio de trocas, no fortalecimento das redes de criação, pois esta acontece sempre em relação com o outro, em conjunção com artefatos, com animais, no contato com a flora e com elementos extraídos da natureza, comprovando as relações múltiplas, compostas do universo criativo.
Durante o flanar entre as obras, um dos principais aspectos que permite reflexões é repensar a classificação hierárquica entre arte e artesanato, pois elas surgem junto ao processo de revitalização feito por artistas femininas de práticas tradicionalmente relacionadas às mulheres como o bordar, o tecer, o crochetar e o tricotar. Outro pensamento que atravessa os visitantes que ali estão recai sobre a arte e a feminilidade, pois esses ofícios sempre estiveram relacionados aos ambientes domésticos e no desenvolvimento de habilidades manuais consideradas até então inferiores dentro da hierarquia de gêneros pictóricos.
Para arrematar o passeio cultural, eu sugiro que vocês também confiram a exposição “La Chola Poblete: Pop Andino” com fotografias, desenhos, aquarelas, vídeos e performances da artista homônima. Os trabalhos estão expostos no edifício Pietro Maria Bardi e conversam com as obras presentes na exposição “Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo”. A artista La Chola Poblete faz questão de alinhavar arte pop, barroco, cosmologia andina, música e moda, além de trazer à tona questões referentes ao universo LGBTQI+ e pautas sobre os latino-americanos, colonialismo, questões de gênero, identidade e empoderamento feminino.
Eu indico as duas exposições.
Beijos,
Maria Oxigenada.
Serviço:
Onde: Masp, localizado na Avenida Paulista, 1500 – Bela Vista.
Temporada: até 2 de agosto de 2026.
Quando: terça, das 10h às 20h; quarta e quinta, das 10h às 18h; sexta, das 10h às 21h; sábado e domingo, das 10h às 18h.
Preço: R$ 85,00 (inteira), R$ 42,00 (meia-entrada). Gratuidade às terças e sextas após as 18h.


