O filme “Backrooms – Um não lugar” me atraiu ao cinema pela curiosidade em observar como um youtuber de 20 e poucos anos chamado Kane Parsons (Kane Pixels) expandiu um produto criado para o canal do audiovisual ao grande público, pois esta é a primeira incursão do artista por Hollywood e na direção de um longa-metragem.
A ideia da película surgiu anos atrás em fóruns da internet e com o desenvolvimento da série The Backrooms, onde a presença de espaços extradimensionais infinitos é trazida à tona na construção de dimensões paralelas. No filme, esses espaços compreendem salas comerciais ociosas, estacionamentos e corredores de hotéis vazios, espaços impossíveis, além de aposentos, residências e porões inabitados.
Os protagonistas da história são: Clark (Chiweter Ejiofor), proprietário de uma loja de móveis, e a médica psiquiatra Mary (Renate Reinsve). A vida dos dois se cruza depois que Clark decide buscar por ajuda psicológica após a sua esposa o expulsar de casa, devido a episódios de violência doméstica causados pelo consumo excessivo de álcool. Além disso, não demora muito para que o espectador perceba que o personagem é uma pessoa frustrada profissionalmente e acalenta desde a infância o sonho de tornar-se um arquiteto.
Outras descobertas são feitas por quem está diante da telona acompanhando a narrativa. A médica é outra personagem que também está em um beco sem saída e presa ao seu passado e as pessoas que fizeram parte dele como a sua mãe, portadora de distúrbios mentais. Assim como Clark, Mary almeja compreender as travas que a impede de avançar através de sua jornada pessoal e conquistar os objetivos idealizados, porém a sua reação é passiva, de observação, enquanto que a do personagem masculino é raivosa e impulsiva.
A dinâmica entre eles muda a partir do momento em que Clark traz para a sessão de terapia a descoberta de um porão, localizado em sua própria loja, que transporta quem o atravessa para outra dimensão e que pode ser acessado somente pelas pessoas que se descolam da realidade.
Preocupada com o discurso feito por Clark dentro do consultório e diante de seu comportamento agitado e ansioso na ocasião, Mary decide procura-lo após alguns dias em sua loja de móveis. No local, ela percebe que ele estava falando a verdade e que há mesmo um espaço extradimensional infinito semelhante ao já conhecido.
O interessante do filme é que ele transforma o obscuro, o secreto em algo assustador através da repetição, da réplica de cenários, da presença do silêncio, do isolamento e de paranoias criadas pelos personagens. Em “Backrooms – Um não lugar” não há a presença de monstros, assassinos em série, manifestações sobrenaturais ou bruxarias como visto em outros filmes do gênero. O terror proposto aqui é claustrofóbico e solitário.
Ao longo de quase duas horas de duração do filme, o ator Chiweter Ejiofor consegue segurar a trama e desenvolver bem a complexidade do seu personagem, enquanto que a atriz Renate Reensve corresponde à altura a tensão criada pelo colega de cena, entregando uma atuação que vibra nas mesmas ondas dramáticas do artista.
No entanto, o problema do longa-metragem é que nos seus minutos finais ele faz tentativas de desenvolver histórias paralelas através da introdução de personagens secundários na trama principal com a intenção de explicar quais eram as tecnologias disponíveis no passado que ajudaram na construção da infância e da adolescência de pessoas de outras gerações.
A preocupação de Kane Parsons em ilustrar as camadas criadas pela psiquê humana e o modo operante delas é completamente desnecessário e subestima a capacidade cognitiva e o poder interpretativo do espectador, por isso o desfecho da aventura não precisava ser tão mastigado.
“Backrooms – Um não lugar” vale por não seguir o script costumeiro de filmes de terror, pela estética vista que explora luzes amarelas, maquetes e uma cenografia que transpira referências às dinâmicas vistas em games de décadas atrás, assim como pela ausência de salpiques de sustos direcionados ao espectador, além de um enredo sem grandes viradas. A película pode sim ser considerada um sinalizador de quais caminhos criativos os roteiristas de Hollywood devem seguir a partir de agora para o desenvolvimento de novas aventuras e novas histórias do gênero.
Fica a dica.
Maria Oxigenada.