O filme “100 noites de desejo” é uma fábula no melhor sentido da palavra, pois o espectador acompanha os efeitos do controle feito por um comitê de homens pássaros, comandado por Birdman, em cima das mulheres da comunidade. Durante o transcorrer da película de 1h32 minutos de duração é possível observar algumas das armadilhas montadas no caminho das Oxigenadas com o intuito de silenciá-las e de submetê-las ao patamar de subserviência.
A narrativa começa acompanhando uma audiência ocorrida entre o casal formado por Cherry (Maika Monroe) e Jerome (Amir El Masry) com Birdman e a cobrança feita pela autoridade em relação ao futuro herdeiro da dupla. O comitê estabelece um prazo de um ano para que Cherry engravide, pois caso isso não aconteça a personagem será executada em praça pública e diante dos demais moradores da região.
O problema é que o casamento entre os dois ainda não foi consumado e Jerome evita a todo custo uma aproximação física com a sua esposa. A solução encontrada por ele para o seu problema chega através da figura de Manfred (Nicholas Galitzine), amigo galanteador, atlético e detentor de uma beleza apolínea.
Jerome abre espaço para que Manfred conquiste e engravide a sua esposa em seu lugar e propõe que o casal de pombinhos goze de 100 noites entre os lençóis. Se o planejado for concretizado, Cherry será acusada de adultério e a personagem será executada, conforme as leis vigentes, e com isso Jerome voltará a ser um homem livre e disponível para protagonizar novas aventuras.
O que o bonito não contava era com a astuta de Cherry e da criada Hero (Emma Corrin), pois as duas se unem para que a patroa não caia no canto do sereio. A estratégia desenvolvida por Hero é envolver os dois em suas histórias criativas que vão de encontro com o enredo dos contos que recheiam o livro “As mil e uma noites”, de Antoine Galland.
Paralelamente, o espectador descobre que Hero faz parte de um grupo de mulheres que se rebelaram contra o comitê de homens pássaros, que desfrutaram de destinos injustos e foram apagadas da história. O caráter rebelde do grupo feminino consistia em saber manipular ervas, ler e escrever suas próprias histórias ou repassá-las através de bordados feitos em peças de roupas para que essas ganhassem o conhecimento de gerações distintas.
O interessante de “100 noites de desejo” é que a aventura é construída de forma sufocante, onde a violência transpira através da troca de olhares, do não gesto, da ausência de diálogos e da instalação do silêncio. A sensação claustrofóbica é potencializada com a adoção de um figurino contendo peças com amarrações, corseletes, golas cerradas e looks discretos.
A fotografia da obra é outro ponto que merece destaque, pois explora belezas naturais como penhascos, a força das águas salgadas batendo em paredões rochosos e a imensidão de planícies, além de buscar por detalhes existentes em castelos e entre as vielas do vilarejo local.
O trio de atores principais trabalha em consonância e está azeitado diante das câmeras, porém o destaque recai sobre a atuação de Emma Corrin que consegue intervir com destreza nas cenas de tensão sexual criadas entre o casal protagonista e, ao mesmo tempo, expressar sentimentos, emoções reprimidas de sua Hero, além de ser a voz poética da narrativa.
Eu indico “100 noites de desejo” às Oxigenadas que curtem embarcar em aventuras descoladas da realidade e àquelas que gostam de acompanhar histórias ambientadas em outro tempo com dinâmicas distintas das encontradas hoje e que retratam mulheres que estão em busca de algo maior para as suas próprias vidas do que simplesmente seguir o script imposto por uma sociedade sexista.
Até a próxima aventura,
Maria Oxigenada.