Uma das maiores vozes brasileira ganhou um musical para chamar de seu. Trata-se da cantora Fafá de Belém e o espetáculo visto em sua homenagem foi escrito por Eduardo Richie e Gustavo Gasparini e conta com Jô Santana na direção artística.

As quase três horas que compõem a peça passam rapidamente, tamanha a riqueza encontrada no percurso pessoal feito pela artista em 50 anos de estrada. O musical começa ambientado em Belém e com Fafá, interpretada na infância por Laura Saab, entrando em contato com a cultura local e descobrindo o folclore brasileiro através das lendas amazônicas, como a do boto cor de rosa, cobra grande, tamba-tajá, matinta pereira, além das festividades em homenagem ao bumba meu boi.

A religiosidade da artista também é defendida durante o espetáculo através da encenação de festas populares como Ciro de Nazaré e a devoção à Nossa Senhora, mas o fio condutor da obra reside no feitio de um documentário em sua homenagem, dirigido por Yara Marques (Naieme), e onde a protagonista no auge de seus 70 anos é interpretada pela a cantora/atriz Lucinha Lins que revisita passagens importantes de sua história pessoal.

Fafá de Belém foi descoberta aos 16 anos pelo produtor musical Roberto Santana, mas foi impedida pelo pai até os 18 anos de profissionalizar-se. Após completar a maioridade, ela rumou para o Rio de Janeiro para gravar a música “Filho da Bahia”, de Walter Queiroz, que integrava a trilha sonora da novela global “Gabriela”, de 1975, com Sonia Braga no papel título.

No espetáculo é possível acompanhar os perrengues enfrentados pela artista neste início de carreira e a sua personalidade forte, destemida que encontrou respaldo em Roberto Santana e escoamento em palcos, diante de microfones e através da interpretação de músicas populares.

A atriz e cantora Helga Nemetik interpreta no show a Fafá de Belém jovem, adentrando a fase adulta e estabelecendo-se como musa e uma das representantes do movimento político Diretas Já que marcou o fim do período ditatorial brasileiro e incentivou a realização das eleições diretas para a eleição do Presidente da República. Na ocasião, o escolhido foi Tancredo Neves, porém a personalidade faleceu antes de tomar posse, abrindo caminhos para que o ex-Presidente José Sarney assumisse o seu primeiro mandato.

As memórias coletivas são trabalhadas na obra, assim como a questão de território, patrimônio ecológico, cultural e artístico, porém algumas fissuras são abertas no show com o objetivo de ressaltar os vínculos da artista com a comunidade LGBTQI+ e também com as suas origens portuguesas, pois Fafá aterrissou na terrinha para cantar fados, tendo inclusive lançado álbuns do gênero. Sua música “Vermelho” tornou-se o hino dos torcedores do Benfica, time de futebol lisboeta.

Outro fato interessante explorado no musical foi a parceria criada entre a artista e o DJ Zé Pedro, em 2015, para a concepção do álbum “Do tamanho certo para o meu sorriso” e que interrompeu uma lacuna de dez anos sem lançar nada no mercado fonográfico.

A atriz Lucinha Lins está encantadora no palco, mostrando toda a maturidade cênica, vocal conquistada ao longo de décadas de atuação e as risadas distribuídas no transcorrer do espetáculo divertem tanto quanto as originais. Já a atriz e cantora Helga Nemetik concentra toda a vitalidade vocal de Fafá de Belém na juventude e, em algumas cenas, o teatro é preenchido pelo seu vozeirão.

Fafá de Belém – o Musical” ainda conta com as participações de Gustavo Gasparani (Raul Mascarenhas/Boto Cor de Rosa), Ananda K, Clarah Passos, Daniel Carneiro, Diego Luri, Fernando Leite, Gabriel Manitta, Larissa Carneiro, Mona Vilardo, Sérgio Dalcin, Thuca Soares, entre outros artistas e músicos.

Já a cenografia do espetáculo é alegre e construída com elementos que evidenciam a fauna e flora amazonense como a vitória-régia, tamba tajá, além das lendas amazonenses. O figurino ostentado pelas personagens principais conta com a presença de vestidos de veludo molhado, peças em paetê, de alfaiataria, blusas e corseletes decotados, saias godês, contendo babados e bordados, além de xales franjados e acessórios grandiosos com pedrarias, destacando os costeiros das fantasias presentes e os cocares.

Não tenho como não evidenciar a cena em que termina o primeiro ato da peça e que conta com todo o elenco cantando “Nossa Senhora” e com a atriz Lucinha Lins vestida com um vestido de cetim amarelo. É simplesmente de arrepiar qualquer um que esteja presente. O show conta com outros momentos empolgantes que vibram na intensidade das risadas dadas por Fafá e um deles é quando há a execução da canção “Vermelho” ou quando a riqueza cultural e estética da Amazônia ganham projeção e explodem dentro da caixa cênica.

O espetáculo é recheado musicalmente. Canções, tais como: Amazônia, Pauapixuna, Bom dia, Belém!, Foi assim, Cavalgada, Que me venha esse homem, Eu sou de lá, Ave Maria, Abandonada, Meu homem, Memórias, Sob medida, Nem às paredes confesso, Agreste, Bilhete, Nuvem de lágrimas, Bandoleiro, Menestrel das Alagoas, Carimbó Siriá e Vermelho integram o repertório da obra.

A homenagem feita é um acerto para a cena teatral atual, pois o espetáculo transpira brasilidade, reverencia a cultura amazônica, a ancestralidade, a floresta e os habitantes daquele solo, além de colocar sob os holofotes um dos nomes de maior projeção nacional. Eu fiquei tão encantada com o que vi a primeira vez que voltei sete dias depois para assistir novamente ao musical.

Eu indico.

Maria Oxigenada.

Serviço:

Onde: teatro Claro Mais, localizado na rua das Olimpíadas, 360 – vila Olímpia.

Temporada: até 12 de julho de 2026.

Quando: quinta e sexta, às 20h; sábado, às 16h e 20h; domingo, às 16h e 20h.

Preço: a partir de R$ 25,00 (meia-entrada) e R$ 50,00 (inteira).

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