O nome do filme do diretor Christopher Nolan parece apropriado para a aventura de cerca de três horas de duração e que acompanha a jornada feita pelo protagonista Odisseu (Matt Damon) durante 20 anos, desde que o herói deixou Ítaca em direção à cidade de Tróia para guerrear até o seu retorno ao lar depois de enfrentar vários obstáculos e provações que o fizeram sentir o amargor de suas conquistas, além de sofrer com traumas bélicos e com a fúria dos deuses, assim como precisar se despir da fantasia de herói.

Baseada na obra escrita por Homero, a película retrata uma sequência de desafios enfrentados pelo personagem principal e seus soldados, desde o embate contra o ciclope Polifemo (Bill Irwin) que os prende dentro de uma caverna, transformando-os em aperitivos, além do encontro com a feiticeira Circe (Samantha Morton) até o encantamento com as sereias e o enfrentamento de episódios de fúria da natureza.

Paralelamente, Penélope (Anne Hathaway), sua esposa, e seu filho Telêmaco (Tom Holland) precisam segurar as pontas em Ítaca durante a ausência do rei, administrando os conflitos surgidos, as visitas de estrangeiros e as investidas de dezenas de pretendentes interessados em ocupar o lugar deixado por Odisseu, especialmente Antínous (Robert Pattinson).

“A Odisséia” também acompanha o desenrolar das buscas feitas por Telêmaco pelo pai, inclusive a sua ida à Esparta para conversar com Menelau (Jon Bernthal) sobre o seu paradeiro. No local, ele descobre algumas curiosidades a respeito da jornada épica desenvolvida pelo patriarca, bem como os pormenores de algumas de suas conquistas, além das divergências surgidas com Agamenon (Benny Safdie), rei grego e um dos comandantes da Guerra de Tróia.

Na literatura, Odisseu é descrito como sendo um estrategista, um contador de histórias com capacidade de persuadir e enganar os seus adversários, mas também alguém com ideias grandiosas, detentor de facetas e feitos geniais, porém não é isso que é refletido neste longa-metragem.

Outro ponto curioso da narrativa ficcional é que as personagens femininas existentes na trama ocupam pouco espaço na tela e são alçadas ao posto de coadjuvantes da aventura cinematográfica como é o caso de Calipso (Charlize Theron), mulher com quem Odisseu passou sete anos juntos e que o ajudou a recuperar a sua memória, digerir embates bélicos e superar alguns traumas, além da feiticeira Circe que é quem indica os caminhos para o regresso fortuito do herói.

As participações de Helena de Tróia (Lupita Nyong´) e da deusa Athena (Zendaya) também têm seus contextos reduzidos na obra e elas apenas costuram passagens históricas e algumas cenas. Penélope é outra personagem que foi praticamente jogada para escanteio na narrativa, precisando se contentar com o posto de mulher passiva e esposa fiel quando na verdade foi uma mulher astuta que para ganhar tempo diz aos súditos que escolherá um novo companheiro após tecer uma mortalha para o sogro Laertes. No entanto, o seu truque era tecer a peça no tear todos os dias e à noite desmanchar o trabalho feito. A estratégia durou três anos até que a serva chamada Melantho (Mia Goth) a dedurou para Antínuos.

O fato é que “A Odisseia” irá agradar quem curte produções grandiosas, bélicas, com fotografia e cenografia apuradas, mas o destaque do filme recai sobre a atuação do ator Matt Damon, pois além de sofrer uma transformação física para o papel, o artista também aprofundou as camadas de seu personagem, despindo-o de vaidades e da capa de herói. Muito provável que ele seja lembrado nas premiações do próximo ano.

Outro ponto alto da aventura é a interpretação entregue pela atriz Samantha Morton que equilibra a imagem indefesa vendida por Circe em um primeiro momento diante dos soldados com a sua faceta perversa de feiticeira que assombra qualquer espectador. A cena de transformação dos porcos é indiscutível uma das melhores feitas no filme.

A minha sugestão é para que vocês antes de conferir ao filme “A Odisséia” revejam “Tróia”, adaptação do poema “Ilíada” e longa-metragem feito em 2004 com Brad Pitt, Orlando Bloom, Eric Bana, Diane Kruger, Rose Byrne, Brian Cox, Saffron Burrows, Julie Christie, entre outros artistas no elenco com o intuito de relembrar os pormenores da Guerra de Tróia, a importância dos personagens existentes nas duas tramas e ainda traçar uma linha de acontecimentos históricos vistos em ambas.

Até a próxima aventura,

Maria Oxigenada.

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