O primeiro flash de pensamento é de que o tempo carrega consigo uma coloração desbotada como as encontradas em fotografias antigas, mas ele também pode ser colorido, vibrante e percebido através do retrato de riquezas culturais, de estilos de vida, das dinâmicas cotidianas e de paralelos feitos entre épocas. O filme “As cores do tempo” trata exatamente disso, pois resgata a história de uma família francesa através da descoberta de afetos, afinidades e da criação de laços emocionais.

Uma herança inesperada reúne em um mesmo lugar alguns dos herdeiros. Trata-se de uma casa abandonada na Normandia rural (França) e que é alvo do interesse de um grupo de construtores locais. Os primos Céline (Julia Praton), Seb (Abraham Wapler), Guy (Vicent Macaigne) e Abdelkrim (Zidedine Soualem) vão até lá para descobrir o que a residência guarda, bem como verificar o estado geral da propriedade. Verdadeiros tesouros são descobertas no local, tais como fotografias, cartas, pinturas e objetos que comungam com fungos, plantas, insetos, animais e camadas de poeira, comprovando as relações múltiplas, compostas e em estado de arquipélagos desses universos criativos, onde há a abertura de espaços para as efervescências, a presença de memórias e a conjunção com elementos da natureza.

No entanto, é a história de sua principal moradora chamada Adèle (Suzanne Lindon) que brota diante dos olhos do espectador. A jovem de 21 anos parte para a Cidade Luz atrás de sua mãe biológica depois do falecimento de sua avó materna. Na ocasião, a protagonista encontra uma Paris moderna, em plena transformação e em ebulição criativa, além de acompanhar de perto o nascimento da fotografia e do Impressionismo.

A personagem principal encara uma verdadeira aventura ao lado do pintor amador Anatole (Paul Kircher) e do aspirante a fotógrafo Lucien (Vassili Schneider). O trio se conhece durante a viagem de trem feita e eles enfrentam juntos adversidades, a falta de dinheiro, de trabalho, de moradia, precisando dividir um quarto na mesma estalagem e pratos de comida para sobreviver.

Várias surpresas atingem Adèle durante a sua incursão à Paris, desde a descoberta da profissão da sua mãe Odette (Sara Giraudeau) até quem é o seu verdadeiro pai mais de vinte anos após o seu nascimento, entretanto o interessante da obra é o retrato feito daquela época, especialmente da cena artística e cultural francesa, assim como a reunião de personalidades, tais como Claude Monet (Olivier Gourmet), o fotógrafo Félix Nadar (Fred Testot), Victor Hugo (François Berléand), Sarah Bernhardt (Philippine Lerou-Beaulieu), Edgar Degas (Nicolas Pietri), Paul Cézanne (Jean Baptiste Seckler), entre outros artistas reunidos em um só lugar.

O longa-metragem de 2h06 minutos alinhava passagens ambientadas no século XIX com outras da atualidade, mostrando os pontos nevrálgicos construídos no passado e as suas dobras temporais e culturais existentes. Não há espaço suficiente na película para o aprofundamento do quarteto de primos apresentado inicialmente, mas o espectador toma ciência de quão diversa pode ser uma família, pois Céline é uma engenheira pragmática, enquanto que Abdelkrim é um professor de escola primária e secundária e Guy, um apicultor. Somente Seb fez jus ao lado artístico de seus antepassados e trilha um caminho como videomaker e fotógrafo.

“As cores do tempo” é um filme poético, inspirador até e ideal para as Oxigenadas que curtem histórias delicadas, tranquilas e que criam pontes sensíveis entre lugares e épocas. Não há como não se emocionar com algumas das cenas vistas e perceber quão importante são as bases que propiciam ao desenvolvimento pessoal de cada uma de nós.

Eu gostei.

Maria Oxigenada.

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