O interesse pela atriz Jessie Buckley explodiu depois que a artista conquistou a estatueta dourada na última edição do Oscar com o filme “Hamnet: a vida antes de Hamlet”. Em “A Noiva”, de Maggie Gyllenhaal, ela mostra outra faceta artística, mais solta, menos melodramática, mas tão hipnotizante e intensa quanto a primeira.

Jessie Buckley assume o papel de Ida/Penélope, nada mais, nada menos do que a noiva de Frankenstein (Christian Bale). Não aquele personagem criado por Guillermo del Toro e interpretado por Jacob Elordi, mas o desenvolvido pela escritora Mary Shelley e que depois de amargar um século de solidão, resolve procurar e pedir ajuda para a Dra. Cornelia Euphronius (Annette Bening) para ter uma companhia e sanar a sua carência afetiva. 

Os dois resolvem desenterrar e ressuscitar a Ida, acompanhante de luxo de um gângster que não possui travas na língua, é uma mulher boêmia, livre sexualmente e que morreu violentamente. Ela acorda sem memórias e não reconhece Frank e nem a Dra. Euphronius. Apesar disso, a personagem acredita nas mentiras proferidas pelo amado de que os dois possuem uma história em comum e são almas gêmeas. 

O problema é que aos poucos Ida é invadida por fragmentos de lembranças e sensações deixadas pela sua outra vida e isso acontece através de impulsos em frequentar lugares underground, assim como desfrutar de sensações de outrora. Ela também se depara com situações perigosas, com a violência urbana existente na década de 30, época em que foi ambientado o longa-metragem de 126 minutos de duração, e com episódios de misoginia. 

A verdade é que o entorno não foi alterado desde o seu retorno e a nova vida de Ida continua pulsando na mesma vibração de antes. O que mudou foi que agora ela não está mais só e tem um monstro para chamar de seu e embarcar conjuntamente em aventuras e fugas cinematográficas. Aos poucos, Frank revela para a amada o seu lado romântico, melancólico de ser através de sua paixão por filmes em branco e preto, por musicais, além da admiração pelo ator Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal).

“A Noiva” é uma obra que bebe de muitas referências, tais como os filmes noir, assim como desenvolve uma sátira à cultura Hollywoodiana, além de discutir o papel da mulher na sociedade não só pelo prisma de Ida, como também pelo da detetive Myrna Malloy (Penélope Cruz), pois esta última precisa provar frequentemente as suas capacidades profissionais perante colegas de profissão.

O problema de “A Noiva” recai sobre o arco narrativo desenvolvido, pois ele está visivelmente problemático. Parte disso é que a diretora Maggie Gyllenhaal quis abraçar várias temáticas distintas, inclusive abrindo espaço de tela para a própria Mary Shelley lamentar sobre a sua partida precoce. Não há o aprofundamento de nenhum dos assuntos levantados. Talvez se a artista tivesse focado em mostrar somente o amor entre duas criaturas renascidas e monstruosas, ela teria sido mais feliz com o resultado final.

Apesar disso, a obra conta com uma estética de qualidade e que mescla imagens em preto e branco com cenas coloridas. Outro ponto alto da película recai sobre a presença de figurinos de época, além da caracterização dos personagens contendo marcas faciais que ajudam a data-los. O salpique de homenagens feitas também é perceptível ao espectador mais atento como ao dançarino e ator Fred Astaire, bem como a Bonnie e Clyde, personagens que fizeram parte do imaginário popular e que foram sensações da mídia. Maggie também ousou em tocar em pautas do universo queer e na atuação da máfia russa nos Estados Unidos.

Sem sombra de dúvidas, o destaque de “A Noiva” recai sobre a interpretação de Jessie Buckley que, aliás, carrega o filme do início ao fim, inclusive trabalhando sotaques diferentes, enfrentando enquadramentos de câmeras e se desdobrando no desenvolvimento de dois personagens diferentes. A atriz está eletrizante no papel e transpira química cênica com Christian Bale, mesmo durante as trocas de olhares. Já o eterno Batman entrega uma faceta mais humanizada, sensível e menos horripilante e sombria do seu Frankenstein. 

O elenco da película fica completo com a participação de Peter Sarsgaard (Jake Wiles), Jeannie Berlin (Greta), Julianne Hough (Iris/Jinx), John Magaro, Louis Cancelmi, Matthew Maher, Linda Emond, Zlatko Buric (Lupino), Karin D. Andersson, Massiel Mordan, Marko Caka e William Hill.

Não há como negar de que a criatividade ronda “A Noiva”, pois o filme é tomado por ondas estimulantes, intensas e que favorecem o acompanhamento da história contada e a torcida pelo destino favorável dos personagens presentes. Apesar de estar classificado como filme de terror, ele não amedronta o espectador e nem o faz tapar os olhos ou sair prematuramente da sala de exibição. 

Eu indico “A Noiva” às Oxigenadas que estão em busca de uma experiencia diferente e que queiram conhecer o capítulo sequencial ao escrito em Frankenstein.

Até a próxima aventura,

Maria Oxigenada.       

    

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