Desde que eu embarquei na aventura de comentar os filmes concorrentes ao Oscar deste ano, procurei cobrir os longas metragens que estão disputando as principais categorias, além de fazer algumas apostas em películas que por algum motivo me chamaram a atenção e dentre os documentários presentes está “A vizinha perfeita”.

Ambientado em Ocala, na Flórida (USA) e no ano de 2023, o filme aborda o assassinato de Ajike Owens, mulher negra, mãe de quatro filhos e que teve a sua vida subtraída de maneira violenta por sua vizinha Susan Lorencz, mulher branca, de meia idade, solitária e com problemas emocionais.

O interessante da película é que a diretora Geeta Gandbhir construiu a narrativa a partir das imagens coletadas nas câmeras corporais de policiais, além de algumas entrevistas com moradores e autoridades, bem como com cenas reais do julgamento da ré, pois a bonita citada acima foi condenada há 25 anos em regime fechado pelo crime cometido.

Agora, vocês não vão acreditar o que motivou tamanha crueldade? As brincadeiras de crianças no bairro residencial em que ambas residiam. Pois é! Parece piada, mas é verdade. Susan Lorencz tinha o hábito de acionar a polícia todas as vezes em que as crianças brincavam no gramado localizado ao lado de sua residência. Ao todo, foram centenas de reclamações e boletins de ocorrência feitos por motivos fúteis, insignificantes.

No entanto, o proprietário do terreno em questão não via problemas em permitir que os pequenos brincassem soltos ao entardecer em seus gramados com bolas e outros brinquedos infantis. Apesar disso, as crianças eram monitoradas por pais da comunidade que as orientavam a não invadirem o espaço alheio, não discutir e chamar um adulto sempre que surgisse algum problema.

Nas imagens, é possível observar o volumar de pequenas discórdias entre as duas partes até culminar na noite em que Susan Lorencz atira através da porta fechada de sua casa contra Ajike Owens, matando-a a sangue frio e tudo por causa de uma bola. A polícia não demorou muito para chegar ao local, assim como a ambulância que foi acionada pelos moradores para socorrer a vítima, mas já era tarde demais para Ajike.

Agora, o que impressiona o espectador é observar a reação da assassina depois de ter sido levada à delegacia para dar o seu depoimento oficial e tomar ciência sobre as consequências de seus atos. A frieza impera no seu olhar e o desprezo transpira através de suas palavras e atitudes diante dos policiais, evidenciando o racismo sistêmico ainda existente nos Estados Unidos e a sua intenção de matar.

A defensoria pública tentou respaldar a atitude extrema tomada pela ré na lei de autodefesa conhecida como stand your ground, mas a estratégia usada foi em vão diante das evidências, dos protestos feitos pela comunidade negra e da pressão exercida não só pelos moradores do bairro residencial, como também pela população, pois o caso ganhou projeção nacional.

“A vizinha perfeita” é somente mais um exemplo de como as pessoas estão desequilibradas, violentas e de como episódios de racismo, xenofobia, transfobia e homofobia continuam sendo uma realidade hoje, além do aumento de casos de feminicídio e de violência contra as mulheres, inclusive no Brasil.

Eu indico “A vizinha perfeita” para as Oxigenadas que curtem acompanhar verdades cruas, documentários contendo abordagens diretas, secas, assim como histórias que tenham a presença de personagens reais e que à primeira vista parecem inofensivos aos olhos de terceiros, mas que não demoram muito para evidenciar as suas facetas perversas e monstruosas.

A digestão desta safra de filmes não está nada fácil, pois o retrogosto deixado por muitas das obras está amargo, prolongado, mas propício para o feitio de reflexões profundas e com possibilidades em travar discussões e realizar trocas com amigos, familiares e colegas.

Até a próxima aventura,

Maria Oxigenada

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