Eu começo este texto dizendo que já estou com a cabeça no futuro e na ânsia por acompanhar as partidas da Copa do Mundo feminina, programada para acontecer no próximo ano, no Brasil, especialmente depois que assisti ao documentário “Bola na trave: futebol feminino no Brasil”.
A película narra a história trilhada pela Seleção feminina, desde a sua formação no início dos anos 90 até o desempenho entregue nas duas últimas Copas. Recheada com depoimentos de ex-atletas, ex-técnicos e jornalistas esportivos é possível compreender o cenário imposto naquela época que nada se diferenciava do retratado no filme “Tan cerca de las nubes”.
O time brasileiro de 1991 partiu para a China para disputar o primeiro mundial organizado pela Fifa (Federação Internacional de Futebol Associado) sem condições alguma, tamanha a precariedade da administração local. Foi perrengue atrás de perrengue. Logo na chegada, as atletas tomaram ciência de que não poderiam treinar ou fazer o reconhecimento do gramado antes do primeiro confronto. Na ocasião, a alimentação foi outro problema enfrentado pelas brasileiras, pois para elas foram oferecidos pratos típicos da culinária chinesa, além de achocolatados, pedaços de bolo e biscoitos.
Na época, não havia uma dieta balanceada pensada por um nutricionista como acontece hoje e nem o acompanhamento de uma equipe técnica, formada por médico, fisioterapeuta, psicólogo, assessoria de marketing, entre outros profissionais com condições de atender as necessidades físicas e psíquicas das jogadoras.
O interessante foi tomar ciência de que a primeira Copa do Mundo feminina foi também o debut da arbitragem feminina nos campos e que dentre as seis bandeirinhas selecionadas para apitar os jogos havia uma brasileira no meio delas. Outro feito histórico foi que a partida que decidiu quem ficaria com o terceiro lugar na competição foi acompanhada de perto e apitada por quatro mulheres em campo.
No primeiro mundial, o Brasil conquistou o nono lugar e Elane marcou o único gol visto. Na Copa de 1999, o Brasil abocanhou o terceiro lugar no mundial, enquanto que em 2003 o time ficou em quinto lugar. Já em 2007, ele conquistou o segundo lugar e, em 2011, a Seleção voltou a ocupar o quinto lugar na classificação geral. Em 2015, O Brasil ficou com a nona posição e, em 2019, ele foi eliminado nas oitavas de final, amargando o décimo lugar na disputa, enquanto que em 2023 o time nacional foi eliminado logo na etapa inicial para a tristeza da galera.
O que fica evidente assistindo ao documentário “Bola na trave: futebol feminino no Brasil” é que apesar do interesse crescente da população brasileira pelo futebol feminino ainda há muitos preconceitos envolvendo-o. O desenvolvimento do esporte deve ser constante, porém é preciso oferecer condições dignas para as jogadoras, assim como aumentar a visibilidade das partidas ao longo do ano, trabalhar o apoio de clubes, federações e o desenvolvimento de políticas educacionais junto as escolas com o objetivo de formar a base da modalidade esportiva.
Pode parecer estranho o que vou dizer, mas tudo é muito recente neste universo, tanto que Renata Mendonça, a primeira comentarista esportiva surgiu diante dos microfones somente em 2015. Até então, os jogos eram comentados e narrados por homens. E foi em 2019 que a Seleção feminina desfilou pela primeira vez com uniformes desenhados para o corpo feminino.
Sim. Estamos defasadas em vários aspectos em relação a outros países que investem na modalidade esportiva, porém nós podemos nos orgulhar e encher a boca para dizer que a Marta, seis vezes considerada melhor futebolista do mundo e a maior artilheira das Copas com 17 gols ao todo, é brasileira.
O trabalho de integração do elenco e alguns preparativos para a Copa de 2027 já começaram e trinta nomes foram levantados por Arthur Elias, atual técnico da Seleção feminina, para treinar em Itu, interior paulista, e participar de amistosos e competições durante o transcorrer deste ano.
Que venham novas conquistas e, quem sabe, um título inédito para o Brasil. Torço desde já para que as Oxigenadas que participam ativamente do futebol feminino possam nos encher de orgulho, assim como fizeram atletas de outras modalidades, como as ginastas Rebeca Andrade, Bárbara Domingos e Geovanna Santos, a skatista Rayssa Leal, as judocas Mayra Aguiar, Beatriz Souza, Rafaela Silva, Larissa Pimenta, a boxeadora Beatriz Ferreira, a velejadora Martine Grael, entre tantas outras de gerações atuais de esportistas.
Até a próxima aventura.
Beijos,
Maria Oxigenada.
Obs: o filme está disponível para visualização gratuita no Youtube.