O filme “Como ganhar milhões antes que a avó morra” esteve presente no São Paulo Food Film Festival, evento realizado anualmente e que propicia experiências sensoriais e culturais aos amantes da boa mesa, pois une gastronomia, cinema e educação através da veiculação de películas sobre a temática, assim como a possibilidade de participações em aulas shows de culinária com chefs de cozinha, debates e degustações de pratos.
O longa-metragem tailandês de 2h09 minutos de duração e dirigido por Pat Boonnitipat acompanha a jornada de aproximação, convivência e aprendizados existente entre When M (Putthipong Assaratanakul) e a sua avó materna Amah (Usha Semkhum).
O protagonista é um jovem que abandonou os seus estudos para tornar-se gamer. A sua rotina consiste em passar os seus dias conectado e jogando com estranhos diante da tela do computador, entretanto depois de ser incentivado por sua melhor amiga ele resolve mudar o seu destino, migrar para a casa de sua avó no intuito de cuidar da idosa doente e, quem sabe, herdar os seus bens.
Em princípio, a avó estranha o movimento feito por M, mas aprecia a reaproximação dos dois e, a partir de então, uma nova rotina é estabelecida na vida da dupla, onde além de trabalhar conjuntamente, eles também dividem as tarefas domésticas, inseguranças e confidências sobre a realidade e o futuro, pois Amah está padecendo dos efeitos de um câncer de intestino.
M é quem acompanha a sua avó nas sessões de quimioterapia, nas consultas médicas e nas internações hospitalares, pois os três filhos da idosa estão ocupados com as suas próprias vidas. O interessante do filme é descobrir o que está por trás da temática principal abordada de cuidados e que resvalam em assuntos sérios, tais como alienação familiar, sobrecarga feminina sentida por Sew (Sarinrat Thomas), filha de Amah, além dos abusos financeiros praticados por familiares próximos, bem como o sinismo masculino e o machismo existente dentro dos lares de famílias espalhadas em todo o mundo, inclusive no Brasil.
A obra conta com outros destaques e estes recaem sobre os pequenos prazeres desfrutados no dia-a-dia, a respeito das dinâmicas adotadas em amizades de longa data, onde há uma carga maior de cumplicidade e divisão de experiências pessoais e, principalmente, a busca por felicidade através da adoção de uma vida simples, próxima de objetos, de memórias e de pessoas queridas.
A graça de “Como ganhar milhões antes que a avó morra” reside em observar o florescimento do amor, pois ele é campo fértil e cresce por vias inimagináveis. Por este prisma, a passagem do tempo acontece e é sentida de maneira diferente da velocidade encontrada em jogos de videogame ou presente em grandes metrópoles.
A cenografia, as locações e a fotografia da obra têm o papel de reforçar essa mensagem, pois a casa de Amah é entulhada, decadente e praticamente outro personagem da narrativa, mas transpira histórias, abarca lembranças de toda a família e é o sujeito transformador de relações e do desfecho da narrativa.
Quanto às atuações vistas, o destaque recai sobre a interpretação da atriz Usha Semkhum, especialmente porque o longa-metragem é o primeiro trabalho de sua carreira artística e ela consegue desenvolver sua personagem com sensibilidade, autenticidade, delicadeza, aprofundando paulatinamente as camadas emocionais de Amah.
“Como ganhar milhões antes que a avó morra” conta ainda com as participações de outros atores, tais como: Tontawan Tantivejakul (Mui), Himawari Tajiri (Rainbow), Duangporn Oapirat (Pinn), Pichai Prommate (Agong), Wattana Subpakit (irmão de Amah), Sanya Kunakorn (Kiang) e Pongsatorn Jongwilas (Soei).
Por ser um drama familiar que aborda questões universais e presentes em diferentes culturas e núcleos familiares, além de ser uma obra com uma carga emotiva elevada, eu acredito que a película seja reconhecida em festivais e premiações programados para acontecer no próximo ano.
Eu indico “Como ganhar milhões antes que a avó morra” às Oxigenadas que gostam de aventuras humanas, comoventes e que carregam consigo ensinamentos filosóficos, existenciais e a respeito da finitude da vida.
Eu gostei.
Maria Oxigenada.
Obs: Alguns títulos dos filmes veiculados durante o festival continuam disponíveis para a visualização on-line até o dia 06 de dezembro através do site www.spfoodfilmfest.art.br/programação