Eu gostaria de começar esta conversa com fragmentos do discurso feito pela atriz Demi Moore durante a cerimônia do Globo de Ouro de 2025. Na ocasião, ela ganhou a estatueta como melhor atriz em filme de comédia por “A Substância” e disse perante os presentes que, no passado, um produtor falou que ela era uma atriz de filmes pipoca, ou seja, aventuras leves, focadas em entretenimento, pouco exigentes, que arrecadavam muito nas bilheterias e que somente após 40 anos de atuação na indústria é que o seu trabalho de atuação foi reconhecido.
Por que eu resgatei tal fala? A resposta é simples. Porque apesar do filme (Des)controle ser uma produção nacional de fácil digestão e também contar com uma atriz conhecida do grande público como é o caso de Carolina Dieckmann protagonizando a obra, ela aborda um tema indigesto e importante de ser discutido na atualidade.
O alcoolismo já foi fio condutor de algumas narrativas ficcionais, tais como: “Drunk – mais uma rodada”, de 2020, “Despedida em Las Vegas”, de 1995, e recentemente ele voltou a ser abordado na novela global “Vale Tudo” e através da personagem Heleninha Roitman (Paolla Oliveira).
Em (Des)controle, os impactos do álcool são contados pelo prisma de Kátia Klein (Carolina Dieckmann), escritora de literatura infanto-juvenil, casada com Zeca (Caco Ciocler), mãe de dois filhos pré-adolescentes, e que depois de 15 anos tem uma recaída no vício.
A desculpa usada pela personagem é de que uma taça de vinho irá abrir os caminhos para a sua criatividade e para a escrita de mais uma aventura literária, além de amenizar a sobrecarga mental e cotidiana, pois como toda mulher Kátia também precisa se virar nos 30 para dar conta de todas as atividades e obrigações diárias impostas a ela.
Quando o assunto é alcoolismo, as histórias costumam seguir um roteiro pré-determinado de chegada ao fim do poço, episódios vexaminosos, de lapsos de memória e descrições de situações, onde a vida da vítima é colocada em risco, pois como visto no filme “Bela Vingança”, de 2020, homens mal intencionados aproximam-se de mulheres embriagadas em baladas e bares com o intuito de abusar física e sexualmente delas.
A verdade é que Kátia não se difere em nada de outras Oxigenadas que convivem com a doença, tanto que em momentos de lucidez e depois de ter passado por poucas e boas, inclusive virado meme na internet após acordar em um chafariz de praça pública após uma noite de bebedeira, ela busca por ajuda no AA (Alcóolicos Anônimos).
Antes disso, um rastro de destruição é riscado em sua história pessoal com o término de seu casamento com Zeca, com a queda financeira de seus rendimentos e de estilo de vida, assim como com o acúmulo de mágoas e descrenças oriundas de sua melhor amiga e agente Leo (Júlia Rabello), como também de seus familiares.
É fato que a luta contra o alcoolismo é insana e demanda que o paciente tenha uma rede de apoio, inclusive com acompanhamento médico e psíquico. Na obra, é possível observar os reflexos da abstinência de álcool no corpo humano com a presença de tremores, ansiedade, agitação, sudorese excessiva, vômitos e até episódios de taquicardia.
A atriz Carolina Dieckmann não tem medo de se jogar no papel, tanto que constrói várias camadas para a sua personagem principal, inclusive desenvolvendo a versão bagaceira de Kátia e que atende pelo nome de Vânia. A roteirista Iafra Britz optou por ilustrar na película as tentações que circundam uma pessoa alcoolista através da presença de outro personagem imaginário.
(Des)controle é um filme com 97 minutos de duração e uma aventura que mescla drama com pitadas de comédia e que é indicada às Oxigenadas que desejam refletir sobre o assunto. Outra sugestão é a leitura do livro “A Saideira: uma dose de esperança depois de anos lutando contra a dependência”, escrito pela jornalista Bárbara Gancia e que ganhou a adaptação para os palcos através da peça “Bárbara”, encenada pela atriz Marisa Orth.
O longa-metragem voltou a ocupar as salas de cinema depois de sua estreia ocorrida em janeiro de 2026 e ainda não há previsão de quando ele entrará para o catálogo de plataformas digitais.
Beijos,
Maria Oxigenada.