O ano de 2012 foi marcado pela execução de um dos crimes mais bárbaros da história brasileira. Trata-se do homicídio praticado por Elize Matsunaga contra o seu marido Marcos Kitano Matsunaga. No entanto, são os pormenores deste crime que chocam quem, por ventura, nunca ouviu sobre o episódio, pois a protagonista da ação depois de atirar na cabeça da vítima, esquartejou o seu corpo, distribuindo as suas partes pela área rural de Cotia, na região metropolitana de São Paulo.
O filme “Elize: sombras de uma mulher” é uma obra ficcional, mas é baseada em fatos reais e no crime descrito acima. Ela joga luz sobre a jornada percorrida pela personagem principal, desde que deixou o Paraná rumo à São Paulo, perpassando pela experiência em ser uma acompanhante de luxo e culminando no casamento com um dos herdeiros da marca de alimentos Yoki.
A união entre os dois deu frutos e gerou uma filha, hoje com 16 anos, porém o diretor do filme Felipe Vellas fez questão de evidenciar os detalhes do relacionamento composto por uma dinâmica opressiva, contendo episódios de agressões físicas e violência psíquica, traições e humilhações públicas. O espectador toma ciência ao longo da película que Marcos cogitava internar Elize em uma clínica psiquiátrica, ficar com a guarda integral de sua filha e colocar um ponto final no conto de fadas da gata borralheira.
No decorrer da narrativa, quem está assistindo-a também descobre que Elize não teve uma infância e adolescência fácil, saudável, pois foi vítima de violência sexual praticada pelo seu padrasto, o que deixou marcas profundas em sua psiquê e a motivou a sair da casa de sua mãe precocemente.
O longa-metragem não tem a intenção de justificar as atitudes da protagonista e nem de transformá-la em vítima, mas faz tentativas de desenvolver as camadas de uma personagem complexa que intriga ainda hoje os profissionais de saúde. Durante a obra, o emocional de Elize oscila todo o tempo e ela demonstra frieza na resolução dos problemas surgidos, além de crueldade e certa excentricidade em relação aos animais.
Em “Elize: sombras de uma mulher”, a personagem título é interpretada com maestria pela atriz Lorena Comparato que disse em entrevista recente que o papel foi um dos mais desafiadores de sua carreira e que procurou não julgar e nem ter contato com a autora do crime, mas precisou recorrer às sessões de terapia para separar a mulher da personagem na intenção de preservar a sua sanidade e individualidade.
O ator Henrique Kimura interpreta Marcos Kitano Matsunaga, mas o filme ainda conta com as participações de Denise Weinberg (tia Marta), Miwa Yanagizawa (Misako Matsunaga), Julia Shimura, Gustavo Falcão (Heitor), Julia Konrad (amiga de Elize), Marat Descartes (padrasto), Luciano Quirino (delegado), Edson Kameda (Mitsuo Matsunaga), entre outros atores.
A caracterização dos personagens também é outro destaque na obra e o trabalho feito por figurinistas, maquiadores, cabelereiros e visagistas aproximaram esteticamente os artistas às pessoas retratadas. O roteiro escrito por Raphael Montes trabalha temas como violência doméstica, desigualdade social, relações de poder, diferenças de classes, feminicídio e também colabora para que haja momentos reflexivos dos espectadores.
Já para quem deseja conhecer um pouco mais sobre o crime, a sugestão é conferir ao documentário “Elize Matsunaga: Era uma vez um crime”, disponível na Netflix. A homicida foi condenada em 2016 a 19 anos e 11 meses de prisão depois de confessá-lo, porém desde 2022 ela está gozando de liberdade. Elize nunca mais viu nem por fotos a sua filha biológica.
Até a próxima aventura,
Maria Oxigenada.