A indústria do entretenimento finalmente resolveu acender os holofotes para as realizações e os feitos de artistas nacionais, tanto que várias produções artísticas, espetáculos teatrais e musicais estão homenageando as personalidades. Dentre as mais recentes estão: Alcione, Fafá de Belém, Gal Costa, Ney Matogrosso, Rita Lee e Gilberto Gil.
O musical “Gil – andar com fé” revisita a trajetória artística do cantor, compositor e instrumentista Gilberto Gil (Gui Ventura), de 84 anos, que ao longo de sua carreira já escreveu 700 músicas, lançou 80 álbuns distintos e possui uma discografia de dar inveja a qualquer outro artista ainda vivo na atualidade.
No entanto, o espetáculo visto faz um recorte de sua vida, pontuando as principais passagens existentes nesta, especialmente o encontro fortuito com Caetano Veloso (Henrique Zannith), Gal Costa (Pamela Machado) e Maria Bethânia (Calu Manhães), além do período em que ele passou exilado em Londres (UK) devido a ditadura militar brasileira, bem como a sua participação na criação do movimento Tropicália. Isso sem dizer nas perdas pessoais que carimbaram a sua alma como a de Pedro e Preta, frutos de sua união com Sandra Gadelha.
O diretor Miguel Falabella não ignora a infância e juventude de Gil, desfrutada no sertão baiano e na cidade de Salvador, tanto que joga luz na ascendência africana do protagonista através da valorização de sua cultura, inclusive as religiões de matrizes afro, além da sua participação em Os filhos de Gandhy, maior afoxé do carnaval baiano e a presença de símbolos visuais como os adinkras presentes na cenografia da obra e que hoje estão popularizados na moda através de estamparias, na arquitetura e no design.
A linhagem de Gilberto Gil é desenhada no palco através dos encontros e desencontros amorosos, pois o artista foi casado com Belina Aguiar com quem teve duas filhas (Nara e Marília), depois com Nara Leão, em seguida com Sandra Gadelha com quem teve três filhos (Pedro, Preta e Maria) e, por fim, com Flora com quem permanece até hoje e teve Bem, Bela e José.
O interessante do musical “Gil – andar com fé” é que há a presença de um narrador chamado Tempo-Rei (Guga Barbosa) que ajuda na construção da história contada, nos alinhavos feitos entre o passado e presente e que interage a todo o momento com a figura do personagem principal ainda jovem, sinalizando que as suas escolhas artísticas foram importantes para o desenvolvimento do cenário musical de hoje.
Salpiques de canções conhecidas são feitos ao longo do espetáculo e as suas interpretações são feitas pelo elenco do musical. Dentre elas estão: “Eu vim da Bahia, “Domingo no parque”, “London, London”, “Tempo-Rei”, “Aquele abraço”, “Se eu quiser falar com Deus”, “Punk da periferia”, “Back in Bahia”, “Palco”, “Realce”, “Toda menina baiana”, “Andar com fé”, “Vamos fugir”, “Superhomem”, “Drão”, entre outras que são executadas durante o intervalo de 15 minutos existentes entre o primeiro e segundo ato como a música “Sítio do Picapau Amarelo”.
O ator Gui Ventura está bem no papel do protagonista da obra, adotando trejeitos e a maresia de Gil, pois até os respiros de falas são parecidos com os feitos pelo artista. “Gil – andar com fé” ainda conta com um corpo de baile, formado por dezenas de bailarinos, que ajuda a imprimir ritmo ao show visto, além de preencher os espaços vazios do palco, pois a cenografia da obra é minimalista e composta apenas por esteiras rolantes, rampas, balcões e placas suspensas que recebem projeções de imagens e cores. Já os músicos da banda que acompanha o espetáculo estão posicionados ao fundo da caixa cênica e visíveis ao público.
Eu indico o musical às Oxigenadas que desejam conhecer a trajetória artística de Gilberto Gil, àquelas que querem revisitar os seus principais sucessos e outras que curtem acompanhar espetáculos teatrais que vibram na alegria das letras de sambas, nas batidas do reggae e do baião, mas que também valorizam a poesia, a delicadeza e a mesclas do popular brasileiro.
Na sessão vista, a resposta da plateia foi à altura do show entregue durante mais de duas horas e que resultou em todos em pé cantando, dançando e acompanhando as performances dos artistas sob os holofotes. Incrível!
Beijos,
Maria Oxigenada.
Serviço:
Onde: teatro Santander, localizado na avenida Juscelino Kubistchek, 2041 – Itaim Bibi.
Temporada: até 29 de novembro de 2026.
Quando: quinta e sexta, às 20h; sábado, às 16 e 20h; domingo, às 15h e 19h.
Preço: entre R$ 25,00 (meia-entrada) até R$ 400,00 (inteira).