Escute com mais frequência

As coisas que os seres,

A voz do fogo se ouve,

Ouça a voz da água.

Escute o vento

O arbusto a soluçar:

É sopro dos ancestrais.

Aqueles que morreram nunca partiram

Estão na sombra que se ilumina

E na sombra cada vez mais densa,

Os mortos não estão debaixo da terra

Estão na árvore trêmula, 

Estão na madeira que geme,

Estão na água que flui,

Estão na cabana, na multidão

Os mortos não estão mortos. 

 

O trecho do poema “Le souffle des ancêtres”, de Birago Diop, é a abertura ideal para os comentários que virão a seguir sobre o documentário “Mundurukuyü – A floresta das mulheres peixes”, pois a obra faz o resgate das tradições, de histórias orais repassadas por gerações, de mitos e alguns ritos que recheiam a cultura dos povos indígenas que habitam as margens do rio Tapajós e a aldeia Sawre Muyby.

A película dirigida por Aldira Akay, Beka Munduruku e Rilcélia Akay, integrantes do coletivo Daje Kapap Eypi, joga luz não só no cotidiano da aldeia, como também em autoridades e especialistas como pajés, curandeiros e erveiras, além de espelhar a mitologia das mulheres Mundurukuyü e as histórias que ajudaram a compor o imaginário local, reforçando a crença de que os espíritos da floresta são parte da família e integram o cenário, pois os antepassados já foram animais, plantas, rios antes de serem transformados em humanos.

A película de 75 minutos de duração também resvala em outras temáticas, tais como as invasões que aconteceram e acontecem em territórios indígenas, além dos reflexos da prática do garimpo local, do desmatamento florestal e da construção de barragens na região para a contenção dos balés criados pelos rios.

No entanto, a intenção primeva do coletivo é expandir a sua voz para outras localidades, evidenciando as atrocidades ocorridas, bem como a importância de preservação não só das diferentes espécies, como também dos saberes dos povos indígenas, pois a floresta nada mais é do que um mundo povoado de ancestrais, de espíritos animais, de seres oníricos, de forças elementares que continuamente dão sentido a territórios da vida. 

O entrelaçamento das ações humanas com outros seres vivos, artefatos, imagens, objetos e meios de vida pode ser parte da resposta que precisamos para conectar, construir diálogos, pontes e encontrar soluções para questões urgentes da atualidade, tais como o aquecimento global, eventos climáticos, o surgimento de doenças, assim como para pensarmos a respeito da escassez alimentar e sobre a durabilidade das riquezas naturais. 

Em 2022, o mesmo coletivo desenvolveu o curta-metragem “Autodemarcação Já”, disponível na plataforma digital Youtube, sobre a importância da preservação das terras indígenas e os esforços feitos na ocasião pelo povo Munduruku para proteger o território ancestral, demarcando ele próprio o seu espaço. O curioso é que somente entre os anos de 2024 e 2025 é que 21 terras indígenas foram demarcadas oficialmente pelo Governo Federal.

Agora, a nossa conversa ganha profundidade e camadas com a leitura do livro “Sabedoria dos cipós”, de Dénètem Touam Bona, que é inspirado em saberes indígenas, afrodescendentes e da floresta, onde o autor desenvolve a ideia de uma cosmopoética da fuga, um pensamento ancorado no corpo que dança, que se desvia, se camufla e se reinventa, pois os cipós com as suas voltas e reviravoltas entrelaçam elementos heterogêneos e inspiram uma sabedoria ardilosa.

Por fim, eu gostaria de terminar este encontro com uma citação feita pelo filósofo e indigenista Aílton Krenak que diz que as respostas que tanto buscamos estão junto à natureza e nos planos de adiar o fim do mundo, enquanto que a jornalista e escritora Néli Pereira nas páginas do livro “Da botica ao boteco: plantas, garrafadas e a coquetelaria brasileira” fala que não tem Brasil sem plantas porque não somos sem essa relação intrínseca com o reino vegetal – seja ela cultural ou espiritual, não importa. Ela nos define, nos caracteriza. 

E Walter Benjamin conclui que não há um gesto, uma ação, uma via – por mais miserável que seja seu autor – que não possa ser salva por uma narrativa, uma dança, um canto, uma barricada. É por meio da fabulação que uma comunidade, qualquer que seja, recupera a potência de agir. 

As integrantes do coletivo Daje Kapap Eypi têm ciência disso e fazem arte voltada ao audiovisual a partir da escuta atenta dos sussurros emitidos pelos ancestrais, pela floresta, pelos rios, pelo assoviar dos ventos e pelos animais presentes na floresta.   

Até a próxima aventura.

Maria Oxigenada.

        

Compartilhe esse artigo!