“Natal Amargo” é o filme mais recente do diretor Pedro Almodóvar e a película veio na sequência de “O quarto ao lado”, de 2024, e do curta “Estranha forma de vida”, de 2023. Logo de cara, é possível identificar a assinatura do autor, especialmente porque a obra é ambientada na Espanha e ostenta as cores fortes, a iluminação elegante costumeira, além de uma narrativa que costura duas histórias distintas.
Em uma delas, a protagonista é Elsa (Bárbara Lennie), publicitária, que namora um bombeiro/stripper chamado Bonifácio (Patrick Criado) e que sofre com crises de enxaqueca terríveis, além de ser vítima de ataques de pânico. Depois de ser hospitalizada com fortes dores de cabeça, a personagem parte junto com uma amiga para as Ilhas Lanzaroti no intuito de restabelecer a sua saúde física e mental, além de fazer uma tentativa de escrever um novo filme. Elsa começou a sua carreira profissional fazendo filmes cults, porém pouco vistos pelo grande público e após a morte de sua mãe às vésperas do Natal, a personagem migra de área no intuito de gozar de estabilidade financeira e alcançar o sucesso não encontrado como cineasta.
A segunda história é a de Raúl, diretor de cinema consagrado que está com bloqueio criativo e com dificuldades para escrever um novo roteiro para chamar de seu. Ele acaba se apropriando dos dramas vividos pela sua assistência pessoal chamada Mônica (Aitana Sánchez Gijón) sem a sua autorização prévia e tal fato coloca à prova a amizade de décadas existente entre eles, além de machucar os envolvidos.
O amargor do longa-metragem consiste em trabalhar e trazer à tona assuntos espinhosos como o envelhecimento, a finitude profissional, as dificuldades na manutenção da produção criativa, assim como a digestão do luto e de perdas de pessoas próximas, além de arrependimentos, inseguranças pessoais e desejos que atravessam gerações.
De certa forma o filme é puxado, mas bem menos do que outros feitos pelo diretor Pedro Almodóvar no passado. A principal diferença é que em “Natal Amargo” o ritmo impresso é moroso e a película é silenciosa, reflexiva, exalando maturidade cênica. Ela também não tenta causar maus estares e nem reviver traumas de Almodóvar quando criança ou jovem que resvalavam em questões religiosas e na educação rigorosa que pontuaram a sua infância e adolescência. Se há alguma proposta implícita na obra, esta é a de questionar até quando é possível manter-se ativo profissionalmente, conservando a mesma qualidade e nível dos projetos desenvolvidos anteriormente.
Quanto à interpretação do elenco, o destaque recai sobre a atriz Aitana Sánchez Gijón que protagoniza a melhor cena do filme nos seus minutos finais, onde troca farpas com o personagem vivido pelo ator Leonardo Sbaraglia e sai de cena depois de desferir uma voadora digna de embates de MMA. “Natal Amargo” também conta com participações especiais, como a da atriz e modelo Rossi de Palma. A artista já atuou em outros longas de Almodóvar, tais como: “Mulheres à beira de um ataque de nervos”, “Madame”, “Kika”, “Mães paralelas”, “Ata-me”, “Julieta”, entre outros.
Eu indico “Natal Amargo” para as Oxigenadas que curtem cinebiografias, pois é exatamente isso que a obra é, além daquelas que gostam de observar similaridades e discrepâncias em relação a outros discursos feitos pelo diretor. Eu adianto que Pedro Almodóvar amenizou as pinceladas feitas na aventura atual.
Beijos,
Maria Oxigenada.