Uma nova exposição entrou em cartaz no Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE). Trata-se de “Jogos de Contaminação”, da artista plástica Nazareth Pacheco, e que foi construída com trabalhos feitos durante quatro décadas de sua atuação no mercado de artes.
Nazareth Pacheco sempre buscou investigar a respeito do corpo feminino, sobre a dimensão interna e política deste, além de desenvolver trabalhos metafóricos a respeito de jogos de poder que perpassam pelas normas sociais, além de refletir sobre a dinâmica de controle e aprisionamento sofridos por muitos corpos, bem como pensar sobre dicotomias, tais como a beleza e a violência, a sedução e a repulsa, o erotismo e a cultura do fetichismo e os múltiplos prazeres.
Para isso, a artista utiliza diferentes tipos de materiais para a constituição das suas obras como borracha, sucatas, contas de acrílico, miçangas, cravos de ferro, fios de nylon, plástico, bronze e outros metais, além de imagens fotográficas, acessórios esportivos e sapatos.
A obra criada com um par de sapatilhas vermelhas, por exemplo, fala sobre o poder das escolhas feitas, a respeito da coragem necessária para seguir por determinadas direções, além da urgência do movimento e de como o ato de caminhar também é uma forma de manifesto social impulsionador de algumas transformações. Já a obra construída a partir de talheres de bronze resvala na necessidade em equilibrar as várias demandas existentes no cotidiano, na vida.
Enquanto que o vestido feito a partir de rebarbas de borracha, pregueado com rebites e adornado com cravos dispostos na barra da saia reforça o conceito de prazer e dor transpirados em algumas relações abusivas e tóxicas, assim como a ideia de amplitude da sedução e de como o corpo feminino ainda é visto como disponível para o hetero sexo, bem como espelha o corpo social, sexista das sociedades.
Outra obra que merece menção no texto é a feita a partir de uma raquete de tênis de bronze e cristais, unindo o peso das cobranças e a fragilidade do corpo em um jogo impossível, enquanto que o trabalho criado a partir da junção de duas lâminas de barbear de acrílico tem como objetivo refletir uma imagem invertida e instável de si mesmo e do entorno. O fato é que os corpos se transformam e são contaminados ao longo de encontros, choques físicos e compartilhamentos.
“Jogos de Contaminação” é uma exposição magnética, pois é apurada esteticamente, desafia os sentidos humanos e exige um arcabouço interpretativo e cultural do visitante devido as temáticas levantadas, as cores e materiais usados, os alinhavos e esgarçamentos feitos pela artista ao longo de todo o percurso narrativo criado para a visitação.
Outra artista multimidia que também trabalhou com a questão do corpo, do tempo e das memórias é a curitibana Luchita. Recentemente, ela expôs algumas de suas criações no Museu da Imagem e do Som (MIS) e a exposição intitulada “Território de Passagem” articulava elementos performáticos, audiovisuais e fotografias. Na ocasião, ela não deixou de colocar o seu próprio corpo para jogo na intenção de acender um filete de luz sobre questões coletivas, patologias, amarras sociais e travas mentais.
A artista desenvolveu uma série de trabalhos especialmente para a exposição, cujo o foco era tratar de diabetes, patologia que atinge 828 milhões de adultos em todo o mundo e a qual ela própria sofre. A série foi feita usando mel e sangue falso invocando as oscilações de glicemia ocorridas durante todo o dia em um diabético, bem como os movimentos que escapam ao nosso controle.
A boa notícia para quem perdeu a oportunidade de conferir a exposição “Território de Passagem” ou acompanhar a oficina promovida pela artista e o bate-papo organizado pelo museu é que Luchita lançou recentemente um livro chamado “Todo momento de achar é um perder-se a si próprio”, onde é possível ficar diante de uma reunião de trabalhos feitos por ela entre os anos de 2017 e 2025.
Quanto à exposição “Jogos de Contaminação”, esta ficará em cartaz até final de outubro no MuBE e é indicada às Oxigenadas que curtem pensar que a arte contemporânea é uma ferramenta eficaz para pensarmos sobre questões que nos atravessam cotidianamente, nos contaminam e nos mobilizam física e emocionalmente, mas que também são inerentes à vida humana e à realidade feminina.
Eu gostei.
Maria Oxigenada.
Serviço:
Onde: MuBE, localizado na rua Alemanha, 221 – Jd. Europa.
Quando: terça, das 11h às 17h; quarta a domingo, das 11h às 18h.
Preço: programa gratuito.