Foi durante os dias de respiro do site da Maria Oxigenada que eu conferi o monólogo “Nefelibato”, protagonizado pelo ator Luiz Machado. Confesso que eu pensei em não escrever a respeito da peça teatral, mas mudei de ideia diante da efervescência política atual que antecede a realização do segundo turno das eleições presidenciais no Brasil.
Muitas de vocês ainda não eram nascidas no início da década de 90, período em que o espetáculo é ambientado, porém acredito que já ouviram falar a respeito dos feitos do ex-Presidente daquela época chamado Fernando Collor de Mello. Dentre eles está o confisco da poupança dos brasileiros, inclusive a de Anderson (Luiz Machado), personagem principal da peça vista.
A vida do protagonista ia de vento em polpa até a ocasião, pois ele administrava uma agência de turismo, herdada de sua família, e era um homem considerado bem sucedido e bem casado, entretanto o golpe dado pela autoridade fez com que a sua vida começasse a rodar para trás. A sua avó, principal pilar econômico da família, falece, o seu casamento desmorona, as portas da agência são cerradas e ele é empurrado para as ruas de uma grande cidade.
Por lá, Anderson descobre o que é a invisibilidade social, os maus tratos sofridos por moradores de rua, pelos sem tetos, bem como toma ciência a respeito de uma política higienista existente e que faz de tudo para esconder os excluídos, camuflar as desigualdades sociais e os problemas reais da população além de constatar os respingos do capitalismo na sociedade e sentir na pele a maldade dos políticos da época.
Como vocês podem perceber, “Nefelibato” trata de vários assuntos relevantes como falência econômica, perdas, digestão de lutos, necessidade de reinvenção pessoal, assim como sobre a dignidade humana e esperança no futuro; tudo isso através de desabafos feitos pelo personagem principal que ora parece delirar diante da plateia, ora é tomado por flashes de lucidez que é pura diversão.
O monólogo está em cartaz há dez anos, contabilizando mais de 500 apresentações feitas com o uso de recursos financeiros próprios dos envolvidos em sua produção, sem recorrer as leis de incentivo fiscal como a Lei Rouanet.
É perceptível a entrega feita pelo ator Luiz Machado durante os 60 minutos do espetáculo visto, pois o artista mantém a régua lá em cima e em nenhum instante diminui a sua intensidade interpretativa. Em muitas das cenas vistas, ele vomita verdades duras, possibilitando que o público faça um exercício reflexivo durante e após o término do show, especialmente sobre a índole, ética e conduta da classe política brasileira.
Escrita por Regiana Antonini e dirigida por Fernando Philbert, o espetáculo ainda conta com a supervisão artística de Amir Hadad. Eu indico “Nefelibato” às Oxigenadas que curtem acompanhar dramas pessoais, àquelas que gostam de histórias que não ostentam desfechos felizes e outras que ficam alegres diante de narrativas que contenham viradas logo no início do desenvolvimento de seu enredo, alterando por completo o percurso de vida dos envolvidos.
Para saber mais a respeito do monólogo, eu sugiro que vocês acompanhem as postagens feitas nas redes sociais da própria peça (@espetaculoneferibato) ou do ator principal (@luiz.machadooficial). Datas e locais de novas apresentações serão divulgados por lá.
Até a próxima aventura.
Maria Oxigenada.