Os anos ditatoriais que assolaram a América Latina ganharam mais um capítulo depois de terem sido retratados nas produções nacionais “Ainda estou aqui” e “O agente secreto”. Trata-se da película “O beijo da mulher aranha”, refilmagem da obra dirigida por Hector Babenco (1985) e que foi inspirada no romance desenvolvido por Manuel Puig.
A primeira versão do longa-metragem contou com os atores Sonia Braga, Raul Julia e William Hurt no elenco, entretanto a versão lançada recentemente é estrelada por J.Lo (Ingrid Luna/Mulher Aranha/Aurora), Diego Luna (Valentín) e Tonatiuh (Molina) e é a adaptação para as telonas da peça teatral montada na década de 90 na Broadway e que foi assinada por Terrence McNally, John Kander e Fred Ebb.
Os assuntos tratados no filme perpassam pela opressão, medo e violência do período militar, por preconceitos, pela homofobia, além de trabalhar o escapismo e a fantasia através do retrato feito do glamour ostentado pelas estrelas de Hollywood na época e de enredos de musicais produzidos na Broadway.
A película começa acompanhando a chegada do vitrinista Molina, detido por atentado ao pudor e por ser homossexual, na cela que irá dividir com o preso político Valentín. De início, os dois não comungam dos mesmos interesses pessoais e nem de estilos de vida parecidos, mas unem forças para suportar as condições precárias da prisão, além do ambiente hostil onde episódios de tortura física e violência mental são frequentes.
O descolamento da realidade da dupla acontece através das histórias contadas por Molina a respeito de peças teatrais e musicais assistidos desde a sua infância, adolescência e que não só serviram como inspirações para o desenvolvimento de seu trabalho profissional, como também na compreensão de sentimentos humanos como as várias facetas do amor.
O interessante do filme é que ele faz um contraponto estético entre a cela escura da prisão e as tonalidades vibrantes dos musicais, assim como estimula embates de pontos de vista entre os dois protagonistas, colaborando nos alinhavos feitos entre as narrativas distintas criadas (a real e a imaginária) e a aproximação gradual da dupla.
Outro acerto da obra foi a escalação de JLo para encarnar o papel de diva ficcional, pois a artista mostra toda a sua versatilidade artística através do canto, da dança e performance vistos na película. Assim como Sonia Braga, J.Lo está reluzente diante das câmeras. Já a carga dramática do filme fica por conta do ator Diego Luna, mas é o artista Tonatiuh quem chama a atenção na obra, pois entrega uma atuação concentrada, delicada e que ajuda na construção de um prisma esperançoso e encantador semelhante ao encontrado em peças musicadas.
O figurino feminino ganha destaque, pois conta com vestidos luxuosos que demarcam as silhuetas através da presença de corseletes, de drapeados, brilhos e transparências. Exemplares de smoking femininos também são vistos, assim como o uso de acessórios como chapéus, luvas, joias, lenços finos amarrados nos pescoços e perucas. As produções são concluídas com esmaltes acesos e o uso de batons vermelhos. Já as vestimentas dos personagens masculinos, elas são resumidas em ternos bem cortados, calças boca de sino, camisas com golas pontiagudas ou colarinhos grandiosos, tricôs, jaquetas de couro e peças puídas.
“O beijo da mulher aranha” é outra oportunidade que vocês têm de conhecer um pouco mais a respeito do período sombrio da história argentina que resultou em cerca de 30 mil mortos e desaparecidos. Diferente de outros países latinos, a Argentina puniu crimes da ditadura com julgamentos de ex-ditadores e repressores nas décadas seguintes. Ainda hoje, as mães e familiares dos desaparecidos daquela época fazem rondas silenciosas na Plaza de Mayo, uma das principais de Buenos Aires. Tal ato transformou-se em símbolo mundial de resistência e busca por justiça.
Em contrapartida, no Brasil a impunidade prevalece até os dias atuais e a maioria dos processos movidos pelo Ministério Público Federal foi engavetada ou rejeitada, porém desde o ano passado familiares de mortos e desaparecidos, vítimas do regime e que estão catalogados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), têm o direito de pedir e receber as certidões de óbito de seus entes queridos retificadas e contendo averbações sobre os reais motivos de suas mortes, causadas pelo Estado brasileiro.
Até a próxima aventura,
Beijos,
Maria Oxigenada.