O saldo das disputas eleitorais foi interessante, pois todas nós tivemos a chance de refletirmos a respeito de direitos conquistados, sobre a importância da democracia em nossas vidas e no que tange a liberdade de pensamento, expressão e o livre arbítrio, além da relevância das ciências como marcos civilizatórios e no feito de saltos desenvolvimentistas.
No entanto, não é fantasioso da minha parte dizer que, provavelmente, em algum momento dessa jornada vocês foram alvos de violência eleitoral ou de episódios de violência psíquica e que precisaram lançar de bom senso, equilíbrio emocional e discernimento para não cair em provocações alheias, inclusive de familiares. A polarização política brasileira construiu este cenário agressivo, de dualidade, de disputas verborrágicas e tecnológicas nunca visto no século XX.
E como sempre faço, não pude deixar de fazer costuras com produtos oriundos do entretenimento com o intuito de criar paralelos entre a realidade brasileira vista recentemente e a peça “O Deus de Spinoza”, assistida durante o tempo de respiro promovido pelo site Maria Oxigenada há um mês.
A fé, a razão e a liberdade de pensamento são as bases para o desenvolvimento do enredo do espetáculo teatral que é protagonizado pelo ator Bruno Perillo. Ambientado no século XVII, a peça não só evidencia os incômodos causados pelo pensamento afrontoso que Baruch Spinoza lançou sobre a comunidade judaica da época como também reflete a respeito de tradições, costumes e dogmas religiosos adotados por esta.
Na ocasião, três rabinos pertencentes ao conselho da comunidade judaica apresentam formas de conversão à Spinoza, porém caso o personagem não as aceite, então ele será levado à júri e, possivelmente, será condenado e exilado da Holanda. Paralelamente à efervescência local, Spinoza expõe o seu pensamento ao amigo e editor de livros Jan Riewwertsz (Juliano Dip) que acaba compartilhando os seus planos futuros com terceiros.
A peça “O Deus de Spinoza” conta com 80 minutos de duração, além de um grupo de músicos, formado por Marcus Veríssimo, Margot Lohn, Nalini Menezes e Gabriel Ferrara no qual acompanha a narrativa desenvolvida sob os holofotes. As canções ouvidas pelo público são sefarditas do século XVII em língua andina.
Quanto ao elenco do show teatral, ele é composto pelos atores Juliano Dip, David Kullock, Luiz Amorim, Roberto Borenstein, Wagner Vaz, mas a direção do espetáculo está a cargo de Luiz Amorim. Quanto a atuação do ator Bruno Perillo, ele defende o herói intelectual de forma honesta, verossímil e determinada.
Outro ponto positivo da obra são os figurinos desenvolvidos pelo estilista João Pimenta que ajudam no transporte de quem está assistindo ao espetáculo para a cidade de Amsterdã (Holanda), de 1677, e que refletem a efervescência das novas ideias da Idade Moderna.
Para quem deseja mergulhar nas temáticas levantadas pela peça ou ainda conhecer um pouco mais sobre o pensamento do protagonista da obra, eu sugiro a leitura dos livros “O Deus de Spinoza”, de Fábio Santos, ou o livro “O Deus de Spinoza – Einstein e a face impessoal do divino”, de José Lázaro Boberg.
Já para aquelas que preferem acompanhar as movimentações feitas dentro da caixa cênica, então a dica é verificar as postagens feitas em redes sociais da peça (@odeusdespinoza) para saber as datas e os locais das suas próximas apresentações.
Beijos,
Maria Oxigenada.