Cada mergulho é um flash! O bordão entoado pela personagem dona Odete (Mara Manzan), na novela O Clone (2001), ilustra bem a enxurrada de notícias lidas e ouvidas nos últimos dias sobre a franquia O diabo veste Prada, pois antes mesmo do lançamento da sequência do filme que virou produto da cultura pop, a imprensa nacional divulgou que o musical homônimo estreará nos palcos paulistanos em fevereiro de 2027 e contará com a atriz Cláudia Raia interpretando a editora de moda Miranda Priestly, enquanto que Myra Ruiz assume o papel de Andy Sachs, a atriz Bruna Guerin será vista como Emily Charlton e Maurício Xavier como Nigel Kipling.

Sincronicidade de fatos? Que nada! Oportunismo mesmo e a chance para que produtores/atores/cantores voltem à cena dos musicais, surfando através de ondas conhecidas e personagens que fizeram história dentro da indústria do entretenimento e que seguem fazendo sucesso entre a galera mesmo passados 20 anos do lançamento da primeira película.

O diabo veste Prada 2 chegou aos cinemas de todo o mundo e quatro dias antes da realização do baile MET Gala, ocorrido no Metropolitan Museum of Art, e que é um dos eventos mais fashionistas da atualidade. No entanto, o filme trabalhou outras temáticas, além do mercado de moda. A obra foi atualizada e toca em assuntos pertinentes, como o colapso vivido pelas publicações impressas, a morte do jornalismo, o cenário midiático atual que prima pelo número de curtidas em redes sociais e pela capitalização de postagens feitas, assim como a adoção de uma mentalidade financeira em detrimento da artística.

A obra ainda menciona o impacto das fusões corporativas no mercado de trabalho, além da falta de estabilidade financeira e profissional das gerações mais jovens, bem como o momento ideal da aposentadoria. Os reflexos de cancelamentos também são trabalhados no longa-metragem, assim como o mercado de luxo, pautado não mais pela exclusividade de produtos, mas pela oportunidade em vivenciar experiências.

A aventura começa com Andy Sachs (Anne Hathaway) recebendo um prêmio de melhor repórter investigativa do ano ao lado de colegas de trabalho no mesmo instante em que é avisada através de uma mensagem de SMS de que foi demitida e de que a publicação na qual trabalhava acaba de encerrar as suas atividades. O seu discurso de agradecimento acaba viralizando nas redes, devido a carga emocional contida e ele chama a atenção do CEO da Runway, revista de moda em que estagiou 20 anos atrás e que jurou que nunca mais colocaria os pés novamente.

O link entre o primeiro e o segundo filme acontece depois da personagem receber uma proposta de trabalho para voltar ao veículo com a missão de melhorar a sua imagem corporativa através da realização de matérias e entrevistas especiais, além de colaborar no apagamento de incêndios surgidos no universo digital. O problema é que no caminho da protagonista há uma Miranda Priestly (Meryl Streep), figura emblemática no mercado de moda e que nunca facilitou a atuação de Andy neste.

Quem for ao cinema vai ficar de boca aberta diante de desfiles internacionais, de eventos luxuosos, de cenários turísticos, de obras de arte e até de celebridades e artistas que fazem participações especiais na película, mas também acompanhará os perrengues enfrentados pelo trio formado por Miranda, Andy e Nigel (Stanley Tucci) para aumentar o ciclo de vida da Runway e a manutenção da qualidade artística do veículo.

O recheio da película é construído com embates e disputas feitas com Emily Charlton (Emily Blunt) que agora é uma executiva atuante dentro do mercado do luxo e representante de uma das marcas anunciantes da Runway. Não preciso nem dizer que Andy volta a flanar entre as cobras criadas e não pode fazer a egípcia ou a garota insegura e inexperiente diante delas, né!?

O elenco principal consegue preservar as características originais dos personagens e está afiadíssimo em frente às câmeras. A química cênica entre Streep e Hathaway é perceptível e as cenas divididas chegam a sair faíscas. Lamento não terem dado mais espaço para a atriz Emily Blunt aprofundar as camadas de sua personagem, especialmente porque neste segundo capitulo ela é um dos respiros cômicos da história. Acho também que Stanley Tucci merecia que o arco narrativo de seu Nigel fosse melhor resolvido. Há ainda a presença de Lucy Liu (Sacha Barnes), Justin Theroux (Benji Barnes), Tracie Thoms (Lily), Helen J. Shein, B. J. Novak, Kenneth Branagh (Stuart), Patrick Brammall, entre outros atores como reforço interpretativo da obra.

O diabo veste Prada 2 mantém o rigor estético visto no primeiro filme, tanto que a sequência inicial de imagens faz referências a ele. Já a construção do figurino usado por cada personagem é um deleite aos olhos dos espectadores, pois é formado por peças coloridas, de alta costura e outras que conversam com a contemporaneidade. A personagem Andy, por exemplo, desfila com peças da Armani Privé, Tom Ford, Chanel, Paco Rabane e Gabriela Hearst. Já Miranda com peças das marcas Sa Su Phi, Dries Van Noten, Armani Privé e criações de Pierpaolo Piccioli, enquanto que Emily Blunt circula com as assinaturas de Jonathan Anderson, Jean Paul Gautier e Rick Owens.

O mundinho da moda está representado na obra e através de pontas feitas pelas modelos Naomi Campbell, Winnie Harlow e Ashley Graham, além de Donatella Versace, Marc Jacobs, Law Roach ou de artistas, esportistas e jornalistas, como Lady Gaga, Jon Batiste, Karl Anthony Towns, Suleika Jaoriad, Hannah Berner e Amelia Demoldenberg.

O diabo veste Prada 2 é a oportunidade de vocês acompanharem uma história nova, readequada às demandas, exigências e desejos dos espectadores de 2026 e que traduz os novos códigos de consumo. Diferente de outras continuações feitas recentemente, a película não requenta a sua primeira versão e surpreende quem estava dentro da sala de exibição.

Eu gostei bastante do filme! Vale até uma segunda conferida.

Beijos,

Maria Oxigenada.

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