O Instituto Tomie Ohtake inaugurou na última semana a exposição “O que que é isso?”, da artista plástica Sheila Hicks, e esta mescla práticas têxtis com escultura, intervenção arquitetônica e design, expandindo o conceito de arte contemporânea com o uso de fios coloridos que, na ocasião, são transformados em superfícies, volumes, estruturas, além de estarem misturados com fibras naturais, materiais industriais e ferramentas tecnológicas.
As cores nascem junto às matérias, ganhando corpo por meio delas. Amarelo, azul, vermelho, marrom, verde, laranja, lilás, branco e rosa são algumas das tonalidades presentes na cartela trabalhada pela artista, entretanto são as combinatórias dessas que constroem uma névoa dopamínica às obras, ativando sensações confortáveis e prazerosas criadas pela narrativa da exposição.
Ao todo, são 30 obras produzidas nas últimas décadas por Sheila Hicks, entre pequenas tecelagens, relevos, esculturas e instalações de escala arquitetônica, além de fotografias realizadas pela artista em parceria com o fotógrafo chileno Sergio Larrain durante viagens feitas pela América Latina no final da década de 50 que, assim como os fios de barbantes, conectaram pontos da vida e desdobraram em constelações múltiplas.
Quanto ao nome da exposição em questão, este faz referência a pergunta feita pelo professor Josef Albers à jovem estudante Sheila Hicks durante a sua formação na Yale University (USA) quando a encontrou experimentando um tear improvisado. Desde então, a pergunta e a curiosidade de outrora reverberam no desenvolvimento de seus trabalhos baseados na prática de experimentação, nos modos de fazer e de tecer tramas sem rigidez, mas que também ostentam nós, novelos de fios com circunvoluções muitas vezes impossíveis de serem desfeitas, porém com condições de serem interpretadas pelos visitantes.
Na esteira do assunto, a exposição “Tecitura do feminino”, de Marlene Barros, em cartaz no CCBB São Paulo, também trabalha com tramas feitas em crochê no intuito de tocar em temáticas femininas, tais como o corpo feminino, as memórias, a maternidade, a sexualidade, a violência de gênero, a identidade e o pertencimento. “Tecitura do feminino” abre possibilidades de aprendizagem, de ecoar memórias, estimular o feitio de trocas e até fortalecer redes criativas, pois suas ações acontecem sempre em relação com o outro, em conjunção com matérias primas extraídas da natureza, comprovando as relações múltiplas, compostas do universo criativo.
Agora, quem deseja completar o passeio cultural iniciado no Instituto Tomie Ohtake, eu sugiro conferir outra exposição que está em cartaz no local até final de outubro. Trata-se de “Contrarrregra”, de Tatiana Blass, contendo pinturas, esculturas, instalações, vídeos, performances que aproximam materiais, imagens, palavras e diferentes temporalidades, construindo obras que permanecem abertas às transformações que as constituem. O uso de vidro, bronze fundido, cera e cerâmica é uma constante nos trabalhos de Tatiana, explorando a relação entre o corpo, a memória, as palavras e a história da arte.
Ao todo, são 50 obras diferentes para apreciação e elas estão divididas em séries intituladas de Contraluz, Quebra-Quebra, Nó, Noite e Dia, Contrarregra, Metade da fala no chão, sendo que o destaque desta última recai sobre uma instalação composta por cinco baterias cobertas por cera microcristalina, posicionada no piso inferior do Instituto ou o vídeo do piano surdo também besuntado por cera que contém 19 minutos de duração e que coloca em pé de igualdade a ausência de som e a sua presença, questionando o retirar e o colocar.
Eu indico as três exposições citadas acima às Oxigenadas que têm a intenção de ampliar a envergadura cultural através da apreciação de produtos de arte contemporânea que cada vez mais são relacionáveis, interativos, carregam discursos políticos, elementos transgressores e aspectos simbólicos que podem ativar gatilhos de mudanças individuais.
Eu gostei.
Maria Oxigenada.
Serviço:
Onde: Instituto Tomie Ohtake, localizado na rua Coropé, 88 – Pinheiros.
Temporada: até 25 de outubro de 2026.
Quando: terça a domingo, das 11h às 19h.
Preço: grátis.