O filme “O último azul” acaba de estrear nos cinemas nacionais e é uma das apostas feitas pelo Brasil na disputa por prêmios internacionais. Em fevereiro, a película abocanhou o Urso de Prata no Festival de Berlim, além de outras duas estatuetas e, recentemente, a obra abriu o Festival de Gramado e está cotada para ser exibida este mês no Festival Internacional de Toronto (Canadá).

O longa-metragem tem tudo para trilhar um caminho bem sucedido, assim como aconteceu com “Ainda estou aqui”, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2025, mantendo o interesse da galera pelas produções feitas pelo audiovisual brasileiro. Outro destaque atual é o filme “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, que entrará em cartaz nos cinemas em novembro deste ano.

“O último azul” discute temas, tais como: etarismo, política higienista, independência, autonomia e liberdade pessoal, além da importância dos vínculos afetivos e das amizades para a manutenção da saúde mental, assim como a busca por felicidade e por desfrutar de uma vida plena e satisfatória durante a velhice. Isso sem dizer nos anestésicos usados por parte da população para suportar as agruras do momento.

Os assuntos tratados em “O último azul” ganham relevância cada vez maior em uma sociedade capitalista como é a nossa e que valoriza o consumo desenfreado, o descarte frequente, a juventude, a liquidez existente nas relações atuais e um estilo de vida pautado no presente.

A película é ambientada na Amazônia e tem como sua protagonista a personagem Tereza (Denise Weinberg), idosa de 77 anos, funcionária de um frigorífico e que é afastada de suas atividades pela empresa devido a sua idade avançada, entretanto a desculpa usada pelos empregadores na ocasião é que chegou o momento de Tereza partir para a Colônia, instituição criada pelo governo para acolher idosos nos seus últimos anos de vida.

A distopia permeia o enredo de “O último azul”, porém os acontecimentos impulsionam a protagonista a lançar-se em uma aventura de autoconhecimento, amadurecimento e de concretização de sonhos através dos filetes dos rios amazônicos.

A jornada começa solitária, mas com o passar do tempo Tereza encontra com pessoas que estão dispostas a ajuda-la, como o barqueiro Cadu (Rodrigo Santoro), o piloto/mecânico Ludemir (Adanilo) e a missionária Roberta (Miriam Socarras), aliás é na companhia de Roberta que Tereza desfruta de pequenos prazeres que foram deixados de lado ao longo de sua vida, como banhar-se em águas límpidas, receber massagens, dançar, rir à toa e desfrutar dos efeitos alucinógenos da gosma azul extraída de um caramujo raro.

Segundo Cadu, os efeitos da “viagem” psicodélica propiciada pelo molusco vislumbram o futuro, os desejos reprimidos, tais como a necessidade do ser humano de ser amado, além do desejo de sentir a adrenalina e os prazeres de jogatinas e os temores em relação à passagem do tempo. 

O grande destaque do filme é a atuação de Denise Weinberg que constrói várias camadas e nuances para a sua Tereza. A química cênica da artista com a atriz Miriam Socarras também vale um comentário, pois as duas exalam cumplicidade, alegria e naturalidade sob os holofotes.  

A fotografia do longa-metragem é um deleite para quem está assistindo ao longa-metragem com a exploração das belezas naturais amazônicas, além dos cinquenta tons de verde existentes nela, assim como a sensualidade encontrada nas curvas de seus rios e que também estão presentes nas frutas tropicais, nas mulheres e na arquitetura de Oscar Niemeyer. 

As casas de palafitas, construídas em regiões alagadiças, também compõem a cenografia da obra, ilustrando a maneira como a comunidade ribeirinha protege as suas moradias de cheias e correntezas de rios.

Eu indico “O último azul” às Oxigenadas que desejam refletir sobre uma realidade que, muitas vezes, é varrida para longe de nossos olhos, mas que está presente ao nosso entorno, devido ao aumento da expectativa de vida dos brasileiros. De maneira poética e lúdica, a obra faz uma crítica ao etarismo, ao descarte humano e a desvalorização da mão de obra de pessoas mais experientes.

Eu gostei.

Maria Oxigenada.      

 

       

           

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