Para quem acha que a França só faz filmes cult, então é porque nunca assistiu as séries “Lupin” ou “Rainhas da grana”. A primeira conta com três temporadas já disponíveis no streaming e uma quarta saindo do forno ainda este ano. Nela, o espectador acompanha as aventuras de Assane Diop (Omar Sy), ladrão que se utiliza de disfarces, inteligência tecnológica e estratégias audaciosas para realizar assaltos milionários ou desmascarar inimigos.
Já a segunda série citada no primeiro parágrafo deste texto é um produto recém-lançado na plataforma Netflix e tem como foco quatro amigas de longa data, moradoras da periferia de Paris, que estão com dificuldades financeiras e decidem formar uma quadrilha especializada em roubar bancos.
O quarteto é constituído pela funcionária de uma agência bancária chamada Rosalie (Rebecca Marder), pela massoterapeuta Kim (Zoé Marchal), pela confeiteira Sofia (Naudra Ayadi) e pela estudante Alexandra (Tya Deslauriers), porém o time conta com o reforço de Chloé (Pascale Arbillot), a primeira-dama de Paris.
A série discute de maneira divertida, a falta de oportunidades e invisibilidade feminina, além do machismo existente na atualidade, assim como a corrupção policial e a atuação do tráfico de drogas nas periferias parisienses; tudo com muito humor, com a presença de personagens caricatos e através do desfiamento de críticas sociais.
Para desviar e confundir a atenção das autoridades locais, o quinteto se transveste de homens, usando perucas e barbas coloridas durante os assaltos, além de disfarçar as suas vozes originais, entretanto a ideia dos assaltos surge depois de Rosalie observar as fragilidades existentes na segurança da agência bancária em que trabalha.
No entanto, o desespero bate após a personagem tomar ciência de que grande parte do seu salário será retido para o pagamento de dívidas contraídas pelo seu marido Simon (Jérémi Laheurte) e pai de seus dois filhos. O bonito está preso no momento, cumprindo pena pelo envolvimento com o traficante e agiota Ezechiel (Olivier Rosemberg).
Outros personagens entram na história para ajudar na tecitura da trama policial como os investigadores Malik (Sami Outalbali), irmão de Sofia, e Laurent (Steve Tientcheu), além do prefeito corrupto da Cidade Luz chamado Marionnaud (François Damiens), marido de Chloé. Já o banqueiro Victor Castel (Jonathan Cohen) funciona como escapismo cômico da narrativa, pois assume o papel de ricaço que cai de amores por Rosalie sem saber que ela e as demais Oxigenadas são as responsáveis pelo assalto ocorrido em seu próprio banco.
Agora o melhor da narrativa são os episódios delirantes de Kim, pois a personagem faz uso de medicamentos controlados e, vez ou outra, sofre com a interferência de pensamentos conflitantes, com a versão ilustrada de seu próprio ego e fantasias criadas somente em sua mente que interferem no sucesso das aventuras conjuntas.
A patota que circunda Ezechiel também arranca risos do espectador, pois é constituída por capangas atrapalhados e que não chegam a meter medo em ninguém, assim como o prefeito Marionnaud que pousa de homem alfa, desprezando e maltratando a sua própria mulher, mas que ao mesmo tempo carrega dependências e fragilidades emocionais.
Com oito episódios de 40 minutos de duração em média, a série “Rainhas da grana” é um exemplar de sororidade feminina, pois retrata a importância das redes de apoio usadas pelas mulheres, como também evidencia a tripla jornada de trabalho enfrentada por elas e que inclui as atividades profissionais, os cuidados com filhos, mães idosas e familiares, bem como a administração doméstica.
As protagonistas entregam boas atuações, revelando aos poucos detalhes de suas vidas pregressas e as reais motivações que as levaram a prática dos assaltos à mão armada e a formação da quadrilha feminina.
A primeira temporada de “Rainhas da grana” possui um final aberto e que dá margens para o desenvolvimento de outra temporada. A série é um programa leve, divertido e ideal de ser feito depois de um dia exaustivo de trabalho ou estudos.
Eu gostei.
Maria Oxigenada.