A quinta edição do festival de filmes sobre gastronomia aconteceu nas últimas duas semanas na capital paulista. Espaços como o Reserva Cultural e o Centro Cultural São Paulo (CCSP) foram os responsáveis não só por exibir películas do gênero, como também em realizar aulas shows com chefs de cozinha e cozinheiros, além de oferecer degustações de pratos de comida e servir outras delícias.
A festa esteve boa, mas ela ainda não terminou, pois a SpCine Play está disponibilizando alguns dos títulos veiculados na ocasião gratuitamente através de sua plataforma digital até dia 31 de outubro, então esta é a oportunidade para quem deseja sentir um pouquinho dos sabores artísticos trabalhados durante o evento.
Dentre os destaques estão: “Alimentando o amanhã”, “Do colo da terra”, “O pouso da gralha azul”, “A colheita”, “Histórias culinárias cubanas”, “Jota Urondo, um cozinheiro impertinente”, “A história de Aisha”, entre outros longas-metragens.
A aventura também é a oportunidade para refletirmos a respeito do futuro da alimentação, pois já é sabido que um terço de toda a comida produzida no planeta vai direto para o lixo, enquanto que milhões de habitantes da Terra passam fome ou privações alimentares. O problema atual não reside somente na falta de alimentos, mas sim no sistema de distribuição e descarte destes, bem como na utilização ainda hoje de mão de obra infantil e de imigrantes em lavouras e plantações como visto em “A colheita”.
Outro assunto levantado em “Alimentando o amanhã” diz respeito ao uso indiscriminado de agrotóxicos em verduras, legumes e frutas na cultura americana, além do esgotamento dos solos através do cultivo de monoculturas, na derrubada sem freios de matas nativas e florestas, assim como nos reflexos para a saúde dos seres humanos do consumo cada vez maior de alimentos ultraprocessados, industrializados, pratos rápidos (fast food), congelados e repletos de aditivos (corantes, conservantes, melhoradores de sabor).
No entanto, há a ressalva da importância dos saberes, conhecimentos e experiencias dos povos originários e ancestrais sobre as florestas e matas, visando ao desenvolvimento de um modelo sustentável não só para a Amazônia como também para a população ribeirinha, os indígenas e as crianças que aprendem desde cedo a valorizar os saberes e tradições alimentares. Torna-se cada vez mais urgente pensarmos em sistemas alimentares que possam regenerar territórios, valorizar culturas distintas, fortalecer a autonomia de comunidades e aumentar o plantio de alimentos orgânicos.
Conferindo ao filme “O pouso da gralha azul”, eu tomei ciência de que 70% de toda a produção alimentícia brasileira é feita por pequenos agricultores ou através da agricultura familiar, então a maioria dos produtos comercializados em feiras de rua, sacolões e pequenos mercados é fruto dos esforços de pessoas que respeitam a terra, as estações do ano e sabem ler as entrelinhas escritas pela natureza como visto em “Do colo da terra”.
A verdade é que não há como não reconhecer a insignificância humana perante à grandiosidade e generosidade da natureza, assim como é importante destacar a atuação de pequenos seres vivos perambulante nesta, como é o caso das abelhas que têm a tarefa de polinizar os campos e culturas, favorecendo a reprodução de plantas com flores e que inclui grande parte dos alimentos consumidos por nós e pela fauna silvestre.
A mensagem deixada por algumas das autoridades entrevistadas nas obras cinematográficas é para continuarmos investindo e comendo comida de verdade, aquela parecida com a que nossas avós faziam, além de montarmos pratos coloridos contendo alimentos variados e, de preferência, feitos no próprio dia, assim como valorizarmos os encontros junto às mesas, pois são esses que irão construir memórias afetivas, nutrir as almas e oferecer oportunidades para sonharmos com um futuro sem escassez alimentar ou a presença de sombras da fome. Aliás, a leitura do livro “Geografia da fome”, de Josué de Castro, é a última sugestão deixada aqui para melhor compreender este assunto indigesto.
Beijos,
Maria Oxigenada.