Este texto entra como bis dos comentários feitos sobre os filmes concorrentes ao Oscar. A minha decisão em abrir espaço extra para ele foi devido a dois fatores. São eles: primeiro porque presenciamos ao bombardeio deflagrado pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã e segundo pelo comentário feito pelo diretor da película Oliver Laxe durante o talk show La Revuelta sobre o comportamento dos brasileiros.

Na ocasião, o artista disse que somos ultranacionalistas e que os votantes brasileiros que integram à Academia escolheriam até um par de sapatos para ter o seu país em destaque ou abocanhar uma estatueta dourada.

Para quem ainda não conferiu o longa-metragem “Sirât”, saiba que ele é ambientado no deserto próximo a Marrocos e constrói uma visão sobre a existência de uma guerra infinita, onde a precariedade, o clima apocalíptico e os conflitos bélicos aumentam as vibrações interpessoais.

Nos primeiros minutos da obra, o espectador é apresentado a Luís (Sergi López) e Esteban (Bruno Núnez), pai e filho, que estão em busca de Marina, filha e irmã, durante uma festa rave, realizada nas areias do deserto. A dupla vai atrás de notícias da garota desaparecida e para isso mostram fotos dela aos participantes do festival.

A descoberta feita é de que outra festa está rolando simultaneamente em outro ponto do deserto e Marina pode estar presente nela, então Luís e Esteban juntam-se a um grupo de cinco pessoas rumo ao destino dançante. O problema da aventura é que a natureza se impõe diante deles, através de caminhos tortuosos e de tragédias que acabam atingindo os personagens, pois o deserto não poupa ninguém e cobra algo em troca de pessoas que optam por enfrenta-lo.

Ao longo do percurso desenhado pelo diretor Oliver Laxe, há a aproximação entre os personagens, assim como o compartilhamento de histórias pessoais, perspectivas de vida e incertezas. “Sirât” surpreende quem o assiste pela sua brutalidade, pela crueza de algumas cenas e por contar com um final aberto e que não limita o futuro dos personagens.

O ponto alto da obra reside na qualidade de seu som, na exploração do cenário árido, bem como na presença de atores amadores no elenco, como Jade Oukid (Jade), Stefania Gadda (Steff), além do desenvolvimento de uma história que desde o seu início se revela misteriosa, dramática e original.

O significado de Sirât é caminho, segundo a tradição islâmica, e representa a ponte fina e afiada que atravessa o inferno e sobre a qual todos nós devemos passar no dia do juízo final. Para os adeptos da religião, apenas os justos conseguirão atravessar a ponte com segurança rumo ao paraíso, enquanto que os pecadores cairão no inferno.

E qual é o inferno enfrentado pelos personagens ao longo da trama? A escassez de recursos, a solidão, o silêncio, as perdas, a deterioração emocional, a falta de perspectivas e de um futuro possível, pois é isso o que as guerras carregam consigo.

Sim. “Sirât” será um forte concorrente para “O Agente Secreto” durante a cerimônia do Oscar. Ele está longe de ser um filme palatável, de fácil degustação ou assimilação, pois contém camadas que somente após o seu término é possível compreendê-las na totalidade. Confesso que saí da sala de cinema anestesiada e permaneci neste estado por alguns minutos.

Eu indico a película às Oxigenadas que curtem acompanhar aventuras fortes, pouco convencionais, que traçam jornadas heroicas aos seus protagonistas e que à princípio estão ofuscadas por lentes coloridas, mas com o passar dos 120 minutos de duração são reveladas por inteiro.

Beijos,

Maria Oxigenada.

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