No exato momento em que eu comecei a escrever este texto, o filme “Sonhos de trem” foi indicado ao Bafta de 2026 na categoria de melhor fotografia. A película também estará concorrendo a quatro estatuetas douradas, pois foi indicada como melhor filme, melhor roteiro adaptado, melhor canção original (Train Dreams) e melhor fotografia.

A fotografia da obra ficou a cargo do brasileiro Adolpho Veloso e ela é um capítulo à parte, pois o profissional fez questão de explorar a luz natural e as belezas encontradas em abundância na natureza. Muitas das cenas vistas no longa-metragem foram gravadas ao amanhecer ou no crepúsculo dos dias de filmagens e privilegiaram o cenário disponível.

Adaptação do conto escrito por Dennis Johnson, “Sonhos de trem” conta a história do lenhador Robert Grainier (Joel Edgerton), homem introspectivo, solitário e de poucas palavras. O personagem trabalha cortando árvores para a construção de pontes e linhas férreas no início do século XX nos Estados Unidos.

Certo dia, ele conhece e se apaixona por Gladys (Felicity Jones) e com ela inicia uma nova aventura conjuntamente. O problema é que Robert passa longas temporadas longe de casa, distante da esposa e da pequena Kate. Faz o tipo caladão e que não troca uma única palavra com os seus colegas de trabalho durante meses. Tal atitude vai deixando marcas em sua alma e na psiquê de Robert, tanto que ele perde a noção da passagem do tempo e de ser um animal social. 

A família é vítima de uma tragédia e isso potencializa ainda mais o isolamento e a condição psíquica de Robert que, vez ou outra, fantasia a presença de pessoas conhecidas e as sensações deixadas pelo calor da convivência com entes queridos.

“Sonhos de trem” trabalha com várias temáticas, tais como a elaboração do luto, a passagem do tempo, o sentimento de culpa, a xenofobia, a exploração de recursos naturais em prol do progresso e da manutenção de um sistema capitalista, além do sentimento de liberdade e bem-estar propiciado pelo contato com a natureza. Na verdade, o protagonista existe por e para ela.

Dirigido por Clint Bentley, a película conta com a narração tocante de Will Patton e com a presença de atores, como Kerry Condon (Claire Thompson), William H. Macy (Arn Peeples), John Diehl (Billy), Nathaniel Arcand (Ignatius Jack), Paul Schneider (Frank), Alfred Hsing (Fu Sheng), John Patrick Lowrie (Sr. Sears), Sean San Jose, Clifton Collins, Rob Price, Johnny Arnoux.      

O ator Joel Edgerton entrega uma interpretação internalizada, típica de um eremita e que é construída através de pequenos gestos, por expressões faciais, pelo sofrimento armazenado, por momentos contemplativos e outros de integração com o seu entorno que reforçam ainda mais a cosmovisão do personagem. Já a atriz Felicity Jones cria uma personagem luminosa e que funciona como farol para o personagem de Joel Edgerton brilhar ao longo de 1h43 minutos de duração da narrativa.  

“Sonhos de trem” não é um filme de fácil acompanhamento, pois é melancólico, possui um ritmo aquém do encontrado nas películas da atualidade e que agracia respiros silenciosos, porém é uma obra que propicia reflexões nos espectadores, além de ser um produto do audiovisual com uma estética que prima por enaltecer as tonalidades, as texturas, os sons e a diversidade de espécies de plantas encontradas em florestas e matas fechadas.

A cerimônia do Bafta está programada para acontecer no dia 22 de fevereiro e eu estarei de dedos cruzados e pronta para aplaudir Adolpho Veloso pela fotografia feita em “Sonhos de trem”. No entanto, o Brasil terá outras oportunidades de ser reconhecido na ocasião, pois o documentário “O apocalipse nos trópicos”, de Petra Costa e Alessandra Orofino, e o longa-metragem “O agente secreto”, de Kleber Mendonça Filho, também estarão no páreo e disputando estatuetas na ocasião.

Eu indico a aventura.

Beijos,

Maria Oxigenada.   

 

      

 

  

   

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