Assim como os painéis de partidas e chegadas existentes em aeroportos, a página de vendas dos filmes em cartaz nos cinemas não param de alterar a sua programação e conta com opções de todos os gêneros. Não sei o real motivo pelo qual eu parei diante do cartaz do filme “Springsteen – Salve-me do desconhecido” e comprei o ingresso para assisti-lo. Talvez o que tenha me atraído ao programa cultural tenha sido a curiosidade em saber a trajetória do artista que tanto escutei nas vitrolas de casa, talvez a sua voz rasgada ou a presença do ator Jeremy Allen White em destaque.   

Sim. É Jeremy Allen White quem dá vida a Bruce Springsteen na telona, ajudando a construir um recorte de dois anos da vida do cantor e compositor após finalizar a turnê The River e embarcar em uma aventura solitária, de autoconhecimento e elaboração de traumas de infância que resultou na concepção do álbum Nebraska.

No entanto, o destaque da película recai sobre o processo criativo de Bruce Springsteen e que começou não só com a visualização do filme “Terra de ninguém”, como também do acompanhamento das histórias de Flannery O´Connor, do trabalho desenvolvido pela banda punk Suicide, do assassinato de Charles Starweather e, principalmente, do mergulho pessoal feito entre as suas lembranças de infância, inclusive em episódios de feminicídios presenciados, pois o pai do personagem era um homem violento e que não poupava a mulher e nem os filhos da violência doméstica.   

A película é a adaptação do livro “Deliver me from nowhere: the making of Bruce Springsteen´s Nebraska”, escrito pelo jornalista Warren Zanes, e é dirigida por Scott Cooper. O interessante da obra é perceber quão esgotado física e mentalmente estava o artista quando ele começou a compor o álbum e os respingos deste esgotamento na concepção de um álbum gravado integralmente dentro de um quarto e com a ajuda de Mike Batlan (Paul Walter Hauser).

O respaldo ao artista durante a sua fuga da realidade chegou através do produtor musical e amigo Jon Landau (Jeremy Strong) que em nenhum momento duvidou da capacidade criativa de Bruce, bem como do desvio proposital sugerido por ele antes de encarar uma nova turnê mundial.

A carga dramática e taciturna do longa-metragem é amenizada pela presença de Faye (Odissa Young), interesse romântico do artista, porém a personagem feminina nunca existiu na verdade e é a personificação de todos os casos amorosos que Bruce teve durante seu período de reclusão.

E o que dizer da atuação de Jeremy Allen White? Ela está de arrepiar, pois além do ator construir várias camadas para o protagonista e rodeá-lo por sombras e dúvidas, o ator também é responsável por soltar a voz durante as canções executadas e as cenas de shows vistas.

Já o ator Jeremy Strong está no meu radar desde que o vi em ação no filme “O Aprendiz”, onde interpretou o advogado inescrupuloso Roy Cohn, mas agora o artista evidencia uma faceta suave, demasiadamente humana e amigável de Jon Landau e isso prova a sua versatilidade cênica. Tenho certeza de que ambos serão indicados a vários prêmios no próximo ano.

“Springsteen – Salve-me do desconhecido” não é um filme palatável e nem indicado a todas as Oxigenadas, mas é uma película comovente, que trata de assuntos importantes como a depressão, o valor das amizades, a necessidade de buscar ajuda profissional para resgatar alegrias, interesses e o próprio sentido da vida.

Confesso que eu desabei em várias passagens do longa e enquanto ficava diante de algumas vulnerabilidades do artista, entretanto a lição tirada daquele momento foi perceber que as doenças mentais acometem famosos, celebridades, artistas de alta performance ou qualquer pessoa que esteja passando por situações estressantes, arrastando correntes por anos ou que não conseguiram elaborar traumas do passado e perdas.

O filme vale pelas atuações vistas e pela disponibilidade do artista retratado em mostrar o quanto ele sangrou para entregar o seu sexto álbum e antes de retomar a sua bem sucedida jornada profissional.  

Nebraska é um disco com uma proposta pouco radiofônica, porém ele vendeu bem e agradou uma parcela da população americana que viu retratado em suas faixas os problemas, as preocupações e os desafios dos anos 80 durante o mandato do então presidente Ronald Regan.

Eu gostei do filme.

Maria Oxigenada.   

        

     

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